Moradores da Barreira do Vasco criticam interdição de São Januário: ‘Preconceito’

Moradores da comunidade do entorno do estádio do Vasco da Gama repudiaram decisão da Justiça de não liberar presença de público nos jogos.

Faixa de protesto posicionada nos arredores de São Januário
Faixa de protesto posicionada nos arredores de São Januário (Foto: Daniel Ramalho)

O relatório de um juiz sugerindo a interdição de São Januário, após uma confusão no estádio em junho, provocou revolta, principalmente de moradores da Barreira do Vasco, comunidade na Zona Norte do Rio.

O Juizado Especial do Torcedor e Grandes Eventos enviou um parecer ao Ministério Público pedindo apuração. Mas palavras do juiz de plantão, Marcelo Rubioli, viralizaram.

Rubioli escreveu: ”Para contextualizar a total falta de condições de operação do local, partindo da área externa à interna, vê-se que todo o complexo é cercado pela comunidade da Barreira do Vasco, de onde houve comumente estampidos de disparos de armas de fogo oriundos do tráfico de drogas lá instalado o que gera clima de insegurança para chegar e sair do estádio. São ruas estreitas, sem área de escape, que sempre ficam lotadas de torcedores se embriagando antes de entrar no estádio”, escreveu o juiz.

O texto foi escrito depois da derrota para o Goiás, pela 11ª rodada do Campeonato Brasileiro. Torcedores do Vasco atiraram rojões, quebraram estruturas e entraram em confronto com a polícia, que chegou a disparar tiros (veja na reportagem abaixo). Não houve relatos de feridos com gravidade.

”Uma tristeza e a certeza de que existe ainda preconceito e racismo por uma favela. Vem conhecer no dia dos jogos pra ver. Não tem essa criminalidade, essa violência que colocaram pra gente. Favela de paz”, diz Vânia Rodrigues da Silva, presidente da associação de moradores.

Rodrigo Mondego, procurador da Comissão de Direitos Humanos da OAB, considera o parecer ”arraigado de preconceitos”.

”Estabelece o conceito antecipado do que, de fato, ele não conhece. Quando ele diz que a Barreira do Vasco é um local conflagrado, com estampido de tiros comumente ouvidos, ele não se pauta na realidade. Tendo em vista que aquele território é um território menos conflagrado, se ouve menos estampidos de tiros que em regiões da cidade que não são favelas”, disse Mondego.

Para a coordenadora do Redes da Maré, Pâmela Carvalho, o discurso aponta uma perspectiva ”equivocada” e ”até mesmo perversa” em relação às favelas.

”Essa perspectiva não surge agora. Ela revela um olhar histórico que observa as favelas como locais marcados apenas pela violência. E é importante dizer também que esse debate ele não é apenas sobre futebol. Nós estamos falando também sobre direitos humanos e sobre cidadania”, opina.

O Vasco também se pronunciou contra as palavras do juiz. Em nota, disse que ”o estádio de São Januário e as comunidades localizadas no seu entorno vem sendo alvo de ataques preconceituosos e elitistas”.

”Nosso estádio está sim, e com muito orgulho, localizado na Barreira do Vasco e próximo do Morro do Tuiutí e da comunidade do Arará, e isso não gera violência ou traz insegurança para o público”.

Um levantamento do Instituto Fogo Cruzado revela que, só esse ano, o número de relatos de tiroteios no entorno do estádio São Januário é o mesmo que o registrado em volta do Maracanã: 22 episódios.

O que diz o juiz

Procurado pela TV Globo, o juiz Marcello Rubioli disse que apenas relatou o ocorrido no dia da invasão do estádio e que o trecho em questão sobre a Barreira do Vasco foi tirado de contexto.

Rubioli negou que objetivo do ofício fosse ofender a comunidade ou os moradores da região e que o intuito era garantir a segurança do torcedor.

Prejuízo ao comércio local

Depois do despacho, o Ministério Público pediu e conseguiu na Justiça a interdição de São Januário. O Vasco recorreu, e os jogos puderam voltar ao estádio, mas sem público.

O clube e o MP discutem um acordo na Justiça para liberar a torcida. Enquanto isso não acontece, moradores da comunidade em volta do estádio reclamam de prejuízo.

Muitos vivem do comércio em dias de jogos. São bares, restaurantes, lanchonetes e ambulantes. Sem vendas, ficou difícil fechar as contas.

Há 19 anos, o trailer de lanche da empresária Denise Coutinho é o sustento da família. Agora, ela está preocupada: ”Muito triste de aguentar. Com o pouco que você ganha, coloca comida dentro de casa”.

”O dinheiro não circula, e as pessoas têm que ter oportunidade. A Barreira necessita desse evento”, diz o empresário Paulo Arruda.

Fonte: G1

2 comentários
  • Responder

    E onde no Rio não tem favela? o Rio e uma favela.
    O Maracanã tem o morro da mangueira, o Engenhão complexo do lins.todo espasso no rio de 500 em500 metros tem favela.

  • Responder

    Boa tarde, pra entender o presente, tem que saber do passado, o Vasco é perseguido já cem anos, em 1923 quando foi campeão e disputaria o campeonato da primeira divisão, foi proibido, alegaram que não tinha estádio, na verdade era porque tinha operários no time e negros, o que os clubes da elite do RJ não permitiam, por isso o Vasco com a ajuda dos comerciantes, na maioria portuguese e dos trabalhadores, torcedores do clube, construíram o estádio de São Januário em 1927, o maior da América latina na época, então entenda a inveja e o racismo que existe até hoje…

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