Resenha! Amaral revela histórias da época de Vasco com Edmundo, Romário e Eurico

Ex-volante do Vasco da Gama, Amaral relembrou sua passagem pelo Cruzmaltino e contou histórias de Romário, Edmundo e Eurico Miranda.

Altair Alves
Por Altair Alves
-  18 de janeiro de 2021 às 23:22-  Atualizada em 18 de janeiro de 2021 às 23:25
Amaral, ex-volante do Vasco da Gama

Juninho Pernambucano, Júnior Baiano, Mauro Galvão, Juninho Paulista, Viola, Edmundo e Romário. Esses eram apenas alguns dos nomes estelares que integravam o elenco do Vasco campeão brasileiro de 2000. Mas, em meio a todos esses craques, muitas vezes, quem mais tinha seu nome gritado pela torcida era Amaral.

Depois de chegar ao clube em 1999, o então volante conquistou o vestiário da equipe e se tornou peça fundamental no esquema do alvinegro carioca. Voluntarioso, Amaral era o que o futebol conhece por “carregador de piano” – aquele que corre e marca muito, para outros jogadores terem mais liberdade dentro de campo.

A rivalidade entre Edmundo e Romário, o temperamento de Eurico e a vaidade daquele elenco campeão foram alguns dos temas respondidos pelo ex-volante na entrevista exclusiva ao Yahoo Esportes. Confira o bate-papo.

Você foi comprado pelo Vasco em 1999, na época em que o clube estava preparando um super time. Tinham chegado Edmundo (na época vindo da Fiorentina), Romário do Flamengo e o Juninho Paulista do Atlético de Madrid. A chegada dessas estrelas no Vasco na época foi o que te motivou a se transferir para o clube? Teve algum outro motivo que te incentivou a jogar no Vasco naquela época?

Amaral: O Pedrinho, que era meu procurador na época, viu que eu não estava jogando muito no Corinthians. Estavam jogando Vampeta e Rincón. Eu entrava às vezes e em outras vezes não jogava. Como o Pedrinho tinha muitos jogadores no Vasco, entre eles o Juninho Pernambucano. Ele tinha as portas muito abertas lá. Aí ele me falou que me colocaria no Vasco para que eu jogasse. Ele me convenceu, e quando eu cheguei lá, tinha um timaço. A primeira pessoa que eu vi lá foi o Romário, que me falou “Pô, Amaral, agora você vai correr certo”.

Como foi dividir o vestiário com Romário? O baixinho sempre teve aquela marra mesmo? Como era sua relação com ele?

A minha relação com ele era muito boa. Eu sou um cara de grupo. Às vezes tinham aquelas divisões entre Edmundo e Romário, por vaidade, porque o Edmundo já estava ali, o Romário chegou. A faixa de capitão foi para o Romário, depois voltou para o Edmundo…

Queria que você falasse um pouco do tema da rivalidade entre Romário e Edmundo. Você já chegou a declarar em entrevistas que teve até um jogo que você olhou para o Romário, tocou para o Edmundo, e o Romário te xingou. Depois pegou uma bola livre, ia tocar para o Edmundo e tocou para o Romário, aí o Edmundo ficou doido com você. Tinha essa rivalidade entre aquelas duas estrelas vascaínas mesmo? Como era a relação entre eles?

Era engraçado quando chegava o final de semana, quando o treinador dava tática, posicionamento e depois o rachão. No rachão, tinha o time do Edmundo e o time do Romário. E eles apostavam. Era bacana essa disputa dos dois, acho que hoje isso faz falta no futebol. Eles não se falavam fora de campo, mas dentro de campo eram unidos, parecia até que eram irmãos. Parecia que dormiam no mesmo quarto, pela questão do entrosamento, da união em prol do clube. E foi justamente essa união que fez o Vasco se tornar forte, a construir aquela equipe que me ajudou a fazer um excelente campeonato mundial, a ser escolhido um dos melhores jogadores em campo e depois ser vendido para a Fiorentina. Essa disputa entre eles era positiva porque não fazia o grupo ficar rachado. Os resultados vinham. Se os resultados não acontecessem, seria negativa. O tempo em que os dois jogaram juntos foi muito positivo, com exceção da final do Mundial que nós perdemos para o Corinthians, em 2000. Foi incrível também no jogo contra o Manchester United. Quando o time fez um dos gols, os dois se abraçaram. Não se olharam, mas se abraçaram.

Como era a relação do falecido ex-presidente do Vasco, Eurico Miranda, com o elenco campeão brasileiro de 2000 e com você em especial?

Quando eu cheguei no Vasco e fui conversar com o Eurico, eu já fiquei com medo. Ele estava com aquele charutão dele. Ele era um presidente participativo. O Eurico sempre falava para o grupo que o coletivo contava muito mais que o individual. Ele falava para o elenco e especificamente para Romário e Edmundo que sabia da rivalidade dos dois, mas que dentro do Vasco era uma camisa só que jogava. Ele dizia que o Vasco tinha uma camisa dividida no meio, mas que o grupo dentro de campo não poderia ser dividido no meio. Ele falava que o grupo tinha que se doar e se entregar.

Houve um episódio na sua relação com o Eurico Miranda de uma chuteira do seu patrocinador que tinha chegado e você precisava usar, mas ele não gostou muito por causa da cor dela, que remetia ao Flamengo. Foi isso mesmo?

Nesse dia, eu cheguei na rouparia e ele estava lá conversando com os roupeiros. Aí eu perguntei para o roupeiro se minha chuteira tinha chegado e ele falou que sim e me mostrou. Quando o Eurico viu, a chuteira era vermelha, da Mizuno, um lançamento. E aí ele falou que vermelha no Vasco não, que era para pintar a chuteira de preto. Aí eu disse pra ele que não podia jogar tinta porque a chuteira era feita de couro de canguru, e que fizessem isso, ela iria ficar dura. Ele falou que não queria nem saber, que era para pedir outra, porque vermelha, naquele time, não jogava. Ele era um cara extremamente participativo. Foi um dos melhores presidentes com quem eu trabalhei. Ele jogava com o clube.

Quem era o cara mais chato e o mais gente boa daquele elenco do Vasco, para você?

Todos eram legais. Eu me dava bem com o Viola. A gente era de São Paulo e viajava juntos. Quando a gente voltava para o Rio, voltava junto também. Não tinha jogador chato. Eles me deixavam à vontade. E quando acabava o treino, o professor Bebeto, um dos melhores preparadores físicos com quem eu já trabalhei me falava que iria me trabalhar de uma forma diferente de todos os outros jogadores, porque ele sabia que eu iria correr para todos eles. Ele me treinava de uma forma magnífica. Quando eu tinha folga, a gente ia treinar na praia. Quando eu chegava no campo, estava voando.

O momento daquele time do Vasco pouco antes de conquistar o título era muito bom. Além do elenco recheado de craques, o time estava tendo resultados dentro de campo. Depois foi se sagrar campeão brasileiro e do Mercosul. Por que você acabou indo pra Fiorentina? Não existia uma vontade de ficar no Vasco?

Porque o objetivo do jogador de futebol é ou chegar à Seleção Brasileira ou ir para a Europa. Para mim, voltar para a Fiorentina era uma coisa que já estava escrita. A minha primeira passagem na Itália foi uma passagem muito difícil, eu não sabia falar o idioma, nunca tinha saído do país, não fui muito aproveitado. No Parma não me deram muita confiança. Foi uma humilhação. E eu queria ganhar o campeonato italiano. Naquela época, seis times brigavam para ser campeões italianos.

O Vasco de 2000, pela qualidade do elenco, pelo alto número de jogadores de qualidade, foi o melhor time em que você jogou na sua carreira?

Em termos de elenco, foi o melhor. Mas na questão de coletivo, de grupo, o melhor foi o Palmeiras de 96, que fez mais de 100 gols. O Palmeiras não tinha um elenco como o Vasco. Naquele elenco do Vasco, se você colocasse a camisa da seleção brasileira, todo mundo jogaria na seleção brasileira.

Acontece muito em elencos com muitos craques da vaidade prevalecer e às vezes o ambiente no vestiário ficar ruim. No time do Vasco chegou a acontecer do clima ficar ruim em algum momento? Como era o ambiente no vestiário? Tinha muita cobrança?

A vaidade do time do Vasco não era nem no vestiário. Era no estacionamento. Se um chegava com uma BMW, o outro chegava com uma Ferrari, mas dentro de campo não tinha vaidade. O clima no vestiário era bom, mas no estacionamento era difícil.

Com exceção desse início de campeonato Brasileiro, o Vasco, nos últimos anos, vem passando por momentos turbulentos dentro de campo, muitas vezes lutando pra não cair. A que você atribui essa queda de qualidade e de resultados do time dentro de campo, se formos comparar o período em que você esteve lá e as últimas temporadas? Na sua opinião, o que poderia ser feito pra melhorar o desempenho do time, para a equipe voltar a ter momentos gloriosos como no final da década de 90 e no início dos anos 2000?

O que o Vasco está passando hoje, o Flamengo passou há uns anos atrás. Só que hoje o Flamengo está em alta e o Vasco não, a nível de títulos. O Vasco parou. O maior adversário do Vasco está dentro do Vasco. Como vascaíno, eu vejo isso. Vejo as postagens que o Edmundo faz, dizendo que quer o Vasco dele de volta. Ele é uma pessoa que tem que estar lá. Nesse momento, tem que colocar os verdadeiros vascaínos lá, para tentar mudar a situação do Vasco, porque o Vasco é grande. Quando eu jogava em 2000 e o time estava bem, muitas vezes o estádio não lotava. Hoje, mesmo com o time não tão bem, você vê que o estádio lota [antes da época de pandemia]. Tem que esquecer o Flamengo e deixar o Flamengo viver o momento dele. O Vasco tem que brigar para estar entre os quatro primeiros, para chegar a uma Libertadores. Tem que haver união no Vasco, e não divisão.

Teve uma entrevista que você deu pra Vasco TV, em 2018, na qual você falou que passou pela torcida na numerada e gritaram seu nome. Você até chegou a se emocionar. Queria que você falasse da sua relação com a torcida vascaína, se tem uma mensagem que você queria deixar depois de 20 anos de ter integrado aquele time que conquistou o Brasileiro de 2000.

Gratidão por tudo que eles fizeram por mim. Eu estava em um time em que tinham muitos craques, melhores que eu, e às vezes o mais exaltado era eu, então eu tenho gratidão pelos gritos que eles cantavam, a arquibancada toda. Joguei lá durante um ano, mas muitos jogadores que jogaram dez, quinze anos no time não possuem o carinho que a torcida tem por mim. Resumindo e uma palavra: Gratidão.

Fonte: Yahoo

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