Relembre o dia em que Maradona enfrentou o Vasco e se rendeu a Dener

No dia 21 de janeiro de 1994, Maradona estreava pelo Newell's Old Boys em amistoso contra o Vasco e se encantava ao talento de Dener.

França Fernandes
Por França Fernandes
-  26 de novembro de 2020 às 18:32-  Atualizada em 26 de novembro de 2020 às 18:34
Dener e Luisinho
Dener e Luisinho (Foto: Reprodução O Globo)
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Gênio, rebelde e indomável, mas que sabia reconhecer quem tratava a bola com o mesmo carinho que ele. No dia 21 de janeiro de 1994, Diego Armando Maradona foi recebido com festa em seu retorno ao futebol argentino, onde estreava pelo Newell’s Old Boys em amistoso contra o Vasco. Mas quem acabaria despertando encanto em campo, roubando a cena e ganhando a própria atenção do “Pibe”, seria outro estreante ainda pouco conhecido mundialmente: Dener, que três meses depois morreria tragicamente em um acidente automobilístico.

Envergando a camisa 10 cruz-maltina — que transbordava em seu corpo franzino —, o ex-jogador de Portuguesa e Grêmio só faltou “fazer chover” com seu estilo habilidoso naquela noite em Rosário (ARG). Em um dos lances mais marcantes que circulam na Internet, é possível ver Dener enfileirando uma série de adversários até ser parado já quase na pequena área pelo goleiro, impedindo aquele que seria um golaço histórico (veja acima), considerando que Maradona estava em campo.

Ao ser substituído no segundo tempo do empate em 0 a 0, Dener foi reverenciado não só pelos torcedores presentes no estádio Parque Independência (ARG) como também pelo próprio mito argentino, que fez questão de aplaudi-lo e elogiá-lo, como se recorda Jair Pereira, técnico do Vasco na ocasião.

“Teve um lance em que o Dener pegou a bola e driblou todo mundo. Depois desse lance, o Maradona falou: ‘Pô, garoto. Que técnica que você tem! Você é muito bom’, e o Dener ficou todo feliz. Ele aconselhou bastante o Dener”, relembrou Jair Pereira ao UOL Esporte.

Médico da equipe vascaína na ocasião, Clóvis Munhoz confirmou o episódio:

“O Maradona ficou muito impressionado. Lembro que ele conversou com algumas pessoas do tipo assim: ‘Quem é esse cara? De onde surgiu esse fenômeno?'”.

Companheiro de Dener na equipe e beneficiado muitas vezes com as assistências e jogadas do camisa 10, o ex-atacante Valdir Bigode puxou da memória exatamente toda a repercussão que o jovem, então com 23 anos, causou no país vizinho.

“Lembro mais dessa ocasião com relação ao Dener. Foi muito comentado na época. O Maradona deu uma declaração de que há muito tempo não via um jogador como o Dener, com aquela ‘fumaça’ que ele fazia”, destacou Valdir, utilizando-se de uma expressão boleira atribuída aos jogadores habilidosos.

“Nosso Maradoninha”

Os jornais brasileiros da época já tratavam o duelo entre Maradona e Dener com muita expectativa, mesmo em se tratando de um amistoso. O carioca “O Globo”, por exemplo, trazia o depoimento daquele que é considerado o mais lendário massagista do Vasco e um dos personagens mais folclóricos do futebol brasileiro: Pai Santana, que já comparava o jogador vascaíno com o craque argentino.

“Vamos bater palma para o Maradona, mas acho que eles devem se preocupar com o nosso Maradoninha (risos)”, brincou na ocasião.

Dener, por sua vez, não se mostrava muito emocionado — se estava empolgado com a ideia de enfrentar o craque argentino, escondeu bem. No aeroporto, antes do embarque, ele comentou sobre o possível estado físico de “Don Diego”, que ainda vinha em um período conturbado de sua carreira, lidando com a dependência química e depressão.

“Se ele não está no melhor de sua forma, eu também não. Minha preocupação é mostrar um bom futebol e tratar de estrear com uma vitória, mesmo sabendo que será uma tarefa difícil”, disse o jovem ao jornal “O Globo”.

“Até o barulho, quando ele batia na bola, era diferente”

Quem pôde ter o privilégio (ou azar?) de ter marcado Maradona foi o então jovem zagueiro vascaíno Tinho, que iniciava sua carreira profissional. O ex-defensor lembra que se pegou um tanto quanto “aéreo” ao se dar conta de que estava diante da lenda do futebol mundial.

“Para mim, foi muito bacana. Você entrava em campo e ficava olhando para ele: ‘Caramba, é o Maradona! Estou marcando o cara!’. Foi uma sensação que só o futebol te proporciona (risos), de ter jogado com a camisa do Vasco e marcado o Maradona. Hoje fica a tristeza de ter pedido aquele que, para mim, foi o segundo maior jogador da história”, destacou.

Companheiro de zaga de Tinho, Alexandre Torres — filho de Carlos Alberto Torres — recorda o encanto que os jogadores do Vasco tiveram ao observar a técnica do argentino dentro das quatro linhas.

“Estava todo mundo na maior expectativa de enfrentar o Maradona. Para a gente, era pré-temporada, então, era importante ter uma boa atuação, estar bem. Mas o que lembro bem desse jogo é que a gente viu a habilidade dele para dominar, dar o passe. A gente brincou que até o barulho, quando ele batia na bola, era diferente. Ele não estava correndo muito, partindo para cima, mas ainda fez grandes jogadas. Foi uma experiência bem interessante. Realmente, esse jogo foi marcante para todos nós”, se recordou.

Dener fez 1º gol pelo Vasco no segundo jogo; Maradona não atuou

Com pouquíssimos registros sobre, muitas pessoas não se recordam do segundo amistoso entre Vasco e Newell’s Old Boys que aconteceu cinco dias depois, também na Argentina. Ele novamente terminou empatado, só que em 2 a 2, com direito a gol de Dener, seu primeiro com a camisa cruz-maltina.

Neste duelo, Maradona não atuou por estar lesionado, mas para os jogadores do Vasco, a experiência do primeiro duelo já tinha valido a pena.

“Foram dois jogos, mas no segundo ele não jogou. Não sei o que aconteceu, mas ele só jogou o primeiro. Mas esse primeiro valeu a experiência”, comentou Alexandre Torres.

Jair Pereira relembrou a frustração dos torcedores presentes ao estádio ao saber que Maradona não iria jogar: “O estádio estava cheio e, quando souberam que ele não iria jogar, foram embora, ficou vazio”.

Passagem frustrante pelo Newell’s e polêmicas antes e depois

O período que precedeu a chegada de Maradona ao Newell’s Old Boys foi cercado de polêmica. O craque estava no Sevilla (ESP), mas ficou incomodado ao saber que dirigentes haviam contratado detetives para fiscalizá-lo na noite espanhola e decidiu deixar o clube.

O retorno ao futebol argentino, porém, não foi como o esperado. Acima do peso, Maradona enfrentou problemas musculares e atuou em apenas cinco jogos oficiais pelo time de Rosário, que contava também com duas figuras conhecidas: o zagueiro Mauricio Pochettino, que marcou época como técnico do Tottenham, e Tata Martino, meia que foi técnico da seleção argentina e do Barcelona.

Deprimido, o craque se afundou nas drogas posteriormente e protagonizou alguns episódios negativos, como os tiros de espingarda em jornalistas que faziam plantão em sua casa e o posterior escândalo de doping na Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos.

Apesar do pouco tempo, o Newell’s Old Boys rendeu homenagens a Maradona ontem. Além de postagens nas redes sociais, os torcedores fizeram um memorial no muro do estádio onde há uma imagem do eterno craque.

FICHA TÉCNICA (duelo Maradona x Dener):

Newell’s Old Boys (ARG) 0 x 0 Vasco da Gama

Competição: Amistoso Internacional
Local: Estádio Parque Independência (Rosário – ARG)
Data: 21/01/1994
Árbitro: Angel Sanchez
Público: Não Informado
Gols: Não houve

Vasco: Carlos Germano, Pimentel, Alexandre Torres, Ricardo Rocha (Tinho), Cássio, Luisinho, Leandro, França, Gian (Yan), Dener (Hernande), Valdir (Jardel). Técnico: Jair Pereira

Newell’s Old Boys: Scopini, Basualdo, Galucci, Pochettino, Siviero, Martino, Llop e Maradona; Berti, Gabrich e Ruffini. Técnico: Jorge Castelli

Fonte: Uol

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