Conheça a participação dos negros na trajetória do Vasco

O Vasco da Gama comemora nesta sexta-feira o dia da Consciência Negra contando detalhes da participação do negro em sua história.

Por França Fernandes
-  20 de novembro de 2020 às 17:57-  Atualizada em 20 de novembro de 2020 às 17:57
Time campeão do Vasco de 1923 (Foto: Centro de Memória/ Vasco)

Vasco celebra no dia da Consciência Negra a história mais bonita do futebol

Nos dias atuais, nunca foi tão relevante destacar a importância do papel do negro nos diversos setores da sociedade brasileira. Nesta data, no dia da Consciência Negra (20/11), um dia de reflexão e luta contra o racismo, abordaremos a relação do Club de Regatas Vasco da Gama com os negros no esporte, destacando alguns fatos e relembrando a memória de personagens fundamentais para o engrandecimento do Gigante da Colina. Logo de imediato, apontamos que o negro tem um papel ativo, participativo e trata-se de um dos atores de destaque da história da agremiação vascaína, seja como dirigente, atleta, sócio ou torcedor. O Vasco da Gama sempre foi um clube inclusivo que exaltou o negro, sendo pioneiro nas batalhas contra o preconceito e a favor da inclusão de todos de forma igualitária.

Entenda o cenário histórico na época que o Vasco surgiu:

A Primeira República (1889-1930) caracterizou-se como um período da História do Brasil no qual uma pequena parcela da sociedade brasileira gozava dos direitos republicanos expostos em lei, enquanto a maior parte da população, especificamente se tratando da cidade do Rio de Janeiro, encontrava-se em estado de marginalização social e política. Por outro lado, naquela sociedade de “bestializados”, insurgia elementos que procuravam lutar contra aquela situação de submissão, tal como se verificou na Revolta da Chibata (1910), na figura de seu líder, o marinheiro João Cândido Felisberto. O negro era a principal vítima da ausência do Estado e da sociedade. Ele não era considerado um cidadão completo, mas um “quase-cidadão”, devido ao seu isolamento social e a privação de direitos.

O início da história do Gigante da Colina com a inclusão dos negros em setores de destaque:

Nesse ambiente bastante hostil para a população negra, em 1905, o Vasco da Gama obteve o seu primeiro título de Campeão de Remo do Rio de Janeiro, tal prática náutica era a principal modalidade esportiva do período. O presidente vascaíno era Candido José de Araujo, eleito em 1904, sendo o primeiro mandatário negro da agremiação vascaína. No ano seguinte, “Candinho” conseguiria a reeleição. Foi durante a sua permanência como presidente do clube que o Vasco obteve o bicampeonato de remo (1905-1906), do então Distrito Federal. Candido Araujo era funcionário público, escriturário da Central do Brasil. Figura influente no esporte náutico, conseguiu fortalecer politicamente a agremiação vascaína na Federação Brasileira das Sociedades do Remo, entidade que organizava o esporte náutico no período.

Trajetória e ascensão do início do futebol no Rio de Janeiro e no Vasco:

Na última década do século XIX, encontramos evidências da prática do futebol no Rio de Janeiro. Mas, será a partir do século XX que o esporte se tornou comum no cenário da cidade e adquire crescimento na sociedade. Diversas agremiações voltadas para tal prática são criadas e clubes já tradicionais em outros esportes aderiram à “febre do football”. Foi o caso do Vasco da Gama e do Flamengo. Na década de 10, esse esporte era praticado em todas as regiões da cidade, experimentado de diferentes formas (clubes, ruas, terrenos baldios) e por diferentes classes sociais. O “esporte bretão” superou o remo e passou a ocupar o posto de esporte mais popular da metrópole.

O tricampeonato do remo em 1912, 1913 e 1914 veio consolidar o Vasco como o maior clube náutico do Rio de Janeiro e um gigante do remo no Brasil. Nessa época, as páginas dos jornais já davam mais destaque às vitórias nos campos do que nas águas. Era questão de tempo para o clube acompanhar a tendência e se render aos encantos do football. Dia após dia aumentava a influência desse esporte no quadro associativo vascaíno e muitos sócios começavam a solicitar a sua inserção no clube.

Sob a presidência de Raul da Silva Campos, o futebol foi institucionalizado no Vasco da Gama. A reforma estatutária aprovada de 26 de novembro de 1915, possibilitou o início oficial das atividades futebolísticas no clube. A estreia do Vasco em campeonatos ocorreu em 1916, pela 3.ª Divisão da competição organizada pela Liga Metropolitana de Sports Athleticos (LMSA).

Desde aquele momento, a agremiação vascaína dava espaço para que membros das camadas populares, incluindo os negros, participassem da formação de suas equipes de futebol. Devemos recordar que no contexto em questão, vivenciava-se o amadorismo, nesse sentido, o atleta era sócio do clube no qual atuava. A partir de 1919, o Clube constrói uma base forte para brigar pela ascensão rumo à divisão de elite do futebol carioca. Os dirigentes vascaínos foram atrás de novos “atores”, na intenção de promover melhores espetáculos, no grande celeiro de craques no Rio de Janeiro: os subúrbios.

O goleiro Nelson da Conceição veio do Engenho de Dentro Athletico Club, então tricampeão da poderosa Liga Suburbana (1916/1917/1918), a entidade mais forte no futebol suburbano. Nascido na cidade de Nova Friburgo, mudou-se para a então capital do Brasil, onde começou a disputar partidas oficiais de futebol ainda muito jovem. Iniciou sua carreira futebolística no Paladino Football Club, clube filiado à Liga Metropolitana de Sports Athleticos (LMSA, depois LMDT). Em 1916, já atuava pelo Engenho de Dentro.

Jogo de estreia do primeiro arqueiro negro, Nelson da Conceição, do Vasco da Gama:

No dia 20 de abril de 1919, o goleiro Nelson da Conceição fez o seu primeiro jogo com a camisa vascaína, no empate por 1 a 1 com a equipe do Palmeiras (RJ). Em 07 de setembro daquele ano, disputou pelo Vasco a sua primeira partida em campeonato, na vitória cruzmaltina por 2 a 0 sobre o Sport Club Rio de Janeiro. O encontro era válido pelo returno do campeonato da 2ª Divisão da LMDT. A importância de Nelson para o Vasco da Gama fica evidenciada pela forma como entrou na equipe e com a análise da sua frequência nos jogos. O melhor goleiro dos subúrbios cariocas veio para ocupar a vaga de titular, tratava-se de uma “contratação” vital para as pretensões do clube.

Desde o Engenho de Dentro AC, mas principalmente nos primeiros anos de Vasco, Nelson da Conceição sofria com o racismo manifestado através das considerações pejorativas relacionadas ao seu trabalho de condutor de veículos (chauffeur) e a sua forma coloquial de falar, posições emitidas nos jornais e revistas da época. O termo chauffeur se referia aos condutores particulares de automóveis, o que hoje é denominado taxista. Esta função era marcada por ser designada a indivíduos de baixa escolaridade, com predominância de pessoas negras.

Vasco teve o primeiro goleiro negro campeão do Carioca na história do futebol:

Em 1922 o Vasco ascendeu à elite do futebol carioca, disputando, no ano seguinte, pela primeira vez em sua história, o campeonato principal contra os clubes mais ricos da cidade. O ano de 1923 foi especial em todos os sentidos para Nelson, para o Vasco e para o futebol carioca. O atleta vascaíno se tornaria o primeiro goleiro negro a ser campeão carioca, e a defender a Seleção Carioca e a Seleção Brasileira.

O grande keeper, com sua técnica e dedicação, tornou-se ídolo de um clube que o próprio atleta ajudou para que virasse um gigante no futebol. De 1919 a 1927, período no qual atuou pelo Gigante da Colina, Nelson realizou 177 jogos, conquistando 115 vitórias e 23 empates, sofrendo 39 derrotas. Ele conquistou o Campeonato Carioca de 1922 (Série B da 1.ª Divisão), o Campeonato Carioca de 1923 e o Campeonato Carioca de 1924. Além disso, esteve na inauguração do Estádio de São Januário.

Vasco da Gama, o clube do povo, teve sucesso com o time Camisas Negras composto por 12 negros populares:

O time dos “Camisas Negras” fez história. A equipe vascaína levou multidões aos campos metropolitanos e deu a certeza da grandeza que atingira o Vasco, tanto para os dirigentes vascaínos, quanto para os seus rivais. No início de 1924, América, Bangu, Botafogo, Flamengo e Fluminense romperam com a Liga Metropolitana e criaram a Associação Metropolitana de Esportes Athleticos (Amea), com a justificativa de que era preciso salvar a “moralidade do futebol carioca”.

Perseguição dos clubes cariocas com o Vasco e a vanguarda vascaína na luta contra o preconceito:

Convidaram o Vasco, que aceitou. No entanto, à agremiação vascaína foram impostas algumas condições, dentre elas a de excluir 12 jogadores de futebol, apontados pela Sindicância da liga como desprovidos de condições morais para praticarem o futebol naquela entidade. A intenção dos clubes das elites, através da Amea, era cristalina: asfixiar o Vasco economicamente e politicamente, e a qualquer outro clube que viesse a montar equipes com jogadores das camadas populares.

Resposta Histórica- a mais bela história do futebol:

O Clube, de forma categórica, se negou a aceitar tal medida e retornou para a Liga Metropolitana. O grande marco desse evento foi o ofício assinado pelo Presidente do Vasco, José Augusto Prestes, e encaminhado à direção da Amea, no qual a agremiação vascaína deixava claro que não abriria mão de seus jogadores “por não se conformar com o processo porque foi feita a investigação das posições sociais desses nossos consócios, investigação levada a um tribunal onde não tiveram nem representação nem defesa”. Esse ofício ficou conhecido como a “Resposta Histórica”.

O início de São Januário- Casa do povo construída pelas mãos e doações de vascaínos:

Neste mesmo ano, impulsionados pela conquista de 1923 e pela tentativa dos ditos “grandes clubes” em asfixiar o Vasco, a vontade por um estádio próprio crescia no “Clube de Santa Luzia”. Os dirigentes vascaínos já debatiam seriamente a compra de um terreno para a construção de sua própria casa. A obtenção de um estádio era enxergada como meio de se conseguir total autonomia para a realização dos seus jogos, parando de alugar estádios de outros clubes por altos valores.

Em 28 de março de 1925, foi comprado o terreno para a construção do tão sonhado estádio. As obras se iniciaram em 06 de junho de 1926 e pouco mais de 10 meses após o início da construção, no dia 21 de abril de 1927, inaugurou-se o Estádio Vasco da Gama, popularmente conhecido como Estádio de São Januário. A “Casa Vascaína”, somada à “Resposta Histórica, materializa a luta do clube contra o racismo e o preconceito social no esporte.

Expresso da vitória escrevia mais um capítulo da história do Vasco com o goleiro e ídolo vascaíno Moacyr Barbosa:

Na década de 40 do século XX, quando já se estava na era do profissionalismo, o Vasco da Gama montou uma das maiores equipes de futebol de todos os tempos: o Expresso da Vitória. Um dos principais jogadores dessa engrenagem foi o goleiro Moacyr Barbosa. Nascido na cidade e Campinas, interior de São Paulo, Barbosa chegou ao Vasco em 1945, vindo do Ypiranga, equipe da capital paulista. No ano seguinte, o maior goleiro vascaíno de todos os tempos, assumiu a posição de titular, permanecendo como absoluto na defesa da baliza vascaína durante o período do Expresso (1945-1953).

Barbosa participou de 431 jogos pelo Vasco da Gama, contabilizando 282 vitórias, 74 empates e 75 derrotas. É o terceiro goleiro que mais atuou pelo Vasco na história. O primeiro jogo que realizou ocorreu em 18 de março de 1945, na vitória de 6 a 1 contra o Grêmio (RS), em partida amistosa.

Pelo Gigante da Colina, é o segundo atleta com mais títulos. Barbosa foi campeão do Campeonato Carioca de 1945, 1947, 1949, 1950, 1952 e 1958; Torneio Municipal de 1945, 1946 e 1947; do Torneio Relâmpago de 1946; do Torneio Rio-São Paulo de 1958; do Torneio de Santiago do Chile e do Quadrangular Internacional do Rio, ambos em 1953. Além disso, foi campeão da América, em 1948, ao vencer o Campeonato Sul-Americano de Campeões.

Pela Seleção Brasileira, destacamos que Barbosa conquistou o Campeonato Sul-Americano de Seleções (atual Copa América), em 1949, em pleno São Januário. Assim, o atleta vascaíno, tornou-se o primeiro goleiro negro a conquistar um título de expressão pelo selecionado brasileiro. Além disso, junto de outros quatro jogadores vascaínos (Ademir, Danilo, Augusto e Chico), levou a Seleção ao seu melhor resultado em Copas do Mundo, atuando no Brasil.

Em 2020 Moacyr Barbosa foi escolhido pela torcida vascaína para ser homenageado pelo Vasco da Gama, através do CT, por toda luta do arqueiro contra o racismo:

Por causa da sua brilhante carreira no futebol, em especial pelo Vasco, e por ter enfrentado o racismo que lhe recaiu fortemente após a derrota do Brasil na final da Copa de 1950, recentemente, o goleiro Barbosa foi duplamente homenageado. Primeiro, o Campo 1 do recém-inaugurado Centro de Treinamento do Club de Regatas Vasco da Gama (CT do Almirante) recebeu o seu nome. Depois, a avenida que fica em frente ao Centro de Treinamento vascaíno foi renomeada, passando a se chamar “Avenida Moacyr Barbosa”.

Agradecimento do Gigante da Colina aos inúmeros negros que viveram e vivem o Vasco:

Naturalmente, um texto como esse, no qual pretende-se homenagear a participação do negro no Vasco da Gama, selecionando algumas figuras emblemáticas, sofrerá críticas por deixar de fora vários personagens que foram importantes para a gloriosa trajetória da agremiação. Poderíamos escrever inúmeras laudas sobre o pugilista, massagista e guia espiritual Pai Santana (Eduardo Santana); o massagista Mário Américo; sobre o torcedor símbolo Domingos Ramalho, de Iara da Silva Barros, chefe de torcida organizada (Camisa 12), e dos milhões de torcedores vascaínos anônimos; sobre atletas como Adhemar Ferreira da Silva (atletismo), Jaguaré (futebol), Sabará (futebol), Tesourinha (futebol), Ely (futebol), Delma Gonçalves (a Pretinha, futebol); e sobre diversos funcionários que ajudam o clube diariamente. Não obstante a limitação desse texto, fica registrado o esforço em relembrar alguns dos Grandes Heróis Negros que ajudaram a construir esse Gigante chamado Vasco da Gama.

Fonte: Site Oficial do Vasco