CBF analisa documentos de pré-acordo da SAF entre Vasco e Lamacchia
Órgão analisa possível conflito de interesses envolvendo a negociação e deve apresentar parecer sobre o negócio entre o Clube e o empresário em setembro.

A Agência da CBF já está de posse de toda a documentação referente ao pré-acordo firmado entre o Vasco e o empresário Marcos Lamacchia para a possível compra da SAF do clube. Com os materiais recebidos, o órgão iniciou a análise da operação e deverá elaborar recomendações sobre o negócio.
Lamacchia assinou com o Vasco um MOU (Memorando de Entendimento), documento que estabelece as bases da negociação. O empresário é filho de José Roberto Lamacchia e enteado de Leila Pereira, presidente do Palmeiras. José Lamacchia, inclusive, já declarou publicamente que atua como avalista do projeto.
A relação familiar é um dos pontos que motivaram a apuração da Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol. O artigo 86 do Regulamento de Fair Play determina que uma pessoa não pode deter propriedade ou controle de mais de um clube da mesma divisão. A regra também alcança parentes de primeiro grau, incluindo enteados.
Diante desse cenário, a agência instaurou um procedimento prévio de averiguação e solicitou ao Vasco documentos relacionados à negociação, entre eles o MOU. O clube respondeu à solicitação e apresentou as informações requeridas. O memorando, segundo os dados analisados, já reúne as principais bases financeiras da operação e detalhes sobre a futura estrutura societária.
Valores previstos na operação
Entre os números apresentados no acordo estão uma dívida de aproximadamente R$ 1,3 bilhão, além da previsão de R$ 700 milhões destinados ao futebol e ao Centro de Treinamento. O planejamento também prevê fluxo de caixa para cinco anos e um déficit anual estimado entre R$ 200 milhões e R$ 300 milhões.
Além da documentação, a agência encaminhou questionamentos ao Vasco e a Marcos Lamacchia sobre a operação. Nas respostas, as partes afirmaram não identificar conflito no negócio.
Agora, o departamento técnico da agência avalia o MOU e a composição societária planejada para determinar se existe, na visão do órgão, alguma infração ao regulamento de Fair Play.
A expectativa é que um parecer técnico seja apresentado para análise da turma da agência da CBF em setembro. Caberá ao colegiado avaliar se há potencial conflito de interesses e, em caso positivo, determinar a abertura de um procedimento formal para apurar a situação.
Pessoas ligadas à negociação entendem que a tendência é justamente pela abertura dessa investigação. Ao final do processo, a turma poderá concluir pela existência ou não de infração, além de determinar eventuais restrições ou soluções para a operação.
Uma das possibilidades previstas no próprio regulamento é a adoção de um “Blind Trust”. Nesse modelo, o gestor ficaria impedido de interferir na administração do clube enquanto persistisse o conflito — neste caso, enquanto Leila Pereira continuar na presidência do Palmeiras.
A atuação da agência ocorre no âmbito esportivo e pode acontecer após o fechamento da operação. O órgão não possui poder para impedir juridicamente a realização de uma operação civil, mas pode impedir o registro do proprietário no âmbito esportivo, junto à CBF, caso sejam identificadas irregularidades.
Se a agência apontar um conflito e apresentar recomendações, a tendência, segundo fontes ligadas à negociação, é que Vasco e Lamacchia aceitem eventuais medidas propostas. Dessa forma, a operação poderia avançar, mas condicionada às restrições determinadas pelo órgão.
Antes disso, porém, o negócio ainda precisa superar outras etapas. A venda da SAF terá de ser aprovada internamente pelo Vasco, primeiro no Conselho Deliberativo e depois em Assembleia Geral. Também será necessário chegar a um acordo com a A-Cap, antiga acionista da SAF vascaína.
Diante da quantidade de etapas e das questões envolvendo a operação, a expectativa é de que a conclusão de todo o processo ainda demore. Assim, uma definição completa do negócio até o fim de 2026 é considerada difícil diante das atuais condicionantes.