Hugo, goleiro do Flamengo, revela o porquê deixou a base do Vasco

Aos 21 anos, o jovem goleiro do Flamengo, Hugo Souza, falou sobre sua saída da base do rival Vasco da Gama.

Hugo Souza, goleiro do Flamengo
Hugo Souza, goleiro do Flamengo

Filho de pais desempregados, um goleiro de nove anos viu o sonho de ser jogador ficar ameaçado. O clube no qual atuava, o Vasco, queria que ele mudasse do futsal para o campo. Mas mandar o menino aos treinos sem a ajuda de custo de R$ 600 que o salão proporcionava seria impossível para aquela família de Dr. Laureano, em Duque de Caxias. Sem o auxílio para transporte, Hugo Souza deixou o Vasco.

Doze anos depois, Neneca, como é apelidado, tem uma convocação para a seleção brasileira, um histórico consolidado na base e a atuação inesquecível pelo Brasileirão com a camisa do Flamengo. Só que uma figura crucial para o desenrolar dessa história não estava mais na arquibancada para vê-lo.

– A diferença da última para essa é que meu pai estava na arquibancada me assistindo e hoje não o tenho mais. Faz seis meses que perdi meu pai. Um cara me me deu tudo. Foi a primeira vez que entrei em campo sem meu pai. Ele não está aqui fisicamente, não viu de casa, mas está la em cima melhor que a gente. Foi meu grande incentivador – disse à TV Globo, após o empate com o Palmeiras.

Hugo começou a jogar bola de quatro para cinco anos. O pai dele, Jorge, chegou a jogar em clubes profissionais como zagueiro, mas sem destaque. Jorge sempre apostou muito no filho. Curiosamente, o título que guarda com carinho dos primeiros capítulos da vida é um estadual de futsal diante do Flamengo.

– Fomos campeões na prorrogação, 5 a 3. Tinha oito anos. Foi meu último ano no Vasco – contou ele, em conversa com o EXTRA no fim de 2018, só publicada agora.

A história no Vasco mudou quando o clube trouxe para o time de futsal o goleiro justamente do rival rubro-negro. Na ocasião, o clube também passava por uma transição política.

– Meu pai foi perguntar o motivo e disseram que eu teria que ir para o campo. Só que na época não tinha condição, já que meus pais estavam desempregados. No futsal do Vasco eu tinha uma ajuda de R$ 600 para eu ir aos treinos. Indo para o campo, não tinha ajuda de custo. Fiquei triste porque não conseguiria continuar – relata o goleiro.

Hugo tem dois irmãos mais velhos por parte de pai e uma irmã mais nova, fruto do relacionamento entre Jorge e a mãe do goleiro. O pai era supervisor de vendas, mas a crise bateu quando ele perdeu o emprego. Após sair do Vasco, o goleiro, que jura ter coração flamenguista desde pequeno, passou alguns meses em escolinhas. Até que, em março de 2009, seu Jorge recebeu a ligação do pai de um outro menino do futsal do Vasco. Ele ficou intrigado ao saber que Hugo estava sem clube e fez uma ponte com o coordenador do futsal do Flamengo na época, Tito.

Para esse caminho ser percorrido, o Flamengo deu um RioCard ao goleiro e ao pai. A rotina não poderia ser feita sem companhia. E teve um período em que uma carona ajudou. Um colega, Gabriel Magalhães, vinha de Teresópolis e o pegava pelo caminho. Isso durou cerca de dois anos e meio. Até que Gabriel se mudou para o Recreio.

-Passei a ter que pegar ônibus às 4h em Caxias para chegar ao Ninho – relatou.

O trajeto mudou para Hugo aos 15 anos, quando passou a morar no CT do Flamengo. Foram três anos tendo o Ninho como casa, literalmente. Para encurtar a distância, a família conseguiu alugar uma casa na região do Riocentro. A residência em Caxias foi alugada para ajudar nos custos. Com a valorização no Flamengo, Hugo conseguiu uma casa melhor em Vargem Grande, mantendo-se perto do lugar onde se desenvolveu como jogador.

Na base do Flamengo, Hugo conviveu com goleiros como Yago Darub e Gabriel Batista. Nos últimos dois anos, ele foi e voltou da base algumas vezes, até ter a chance deste domingo, contra o Palmeiras, diante dos desfalques causados pela Covid-19 e lesões.

O contrato atual com o Fla expira em 30 de setembro de 2023 e foi assinado já depois da surpreendente convocação para a seleção principal. Em 2018, Tite levou como terceira opção para o gol alguns nomes da seleção sub-20. Hugo foi o primeiro deles.

Neneca se destaca pela estatura (1,96m), mas tem agilidade para defender bolas rasteiras, como no principal lance do empate em São Paulo. Ele espalmou uma cabeçada de Luiz Adriano à queima roupa.

Hugo viu de perto as glórias do Flamengo em 2019. Mas a meta é fazer parte da história. Ele não precisa mais dos R$ 600. Mas o sonho é o mesmo daquele garoto tão amado por seu Jorge, o Neneca original, e toda a família.

Fonte: Extra Online

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