Dulce Rosalina: conheça a mulher que transformou a torcida do Vasco

Primeira mulher a comandar uma torcida organizada no Brasil, Dulce Rosalina deixou um legado que permanece vivo em São Januário.

Dulce Rosalina
Dulce Rosalina (Foto: Acervo Museu Vasco da Gama)

Quem passa por São Januário horas antes de uma partida do Vasco encontra uma homenagem que se tornou parte da paisagem do estádio. Estendida nas arquibancadas, uma faixa lembra Dulce Rosalina Ponce de León, torcedora que ajudou a transformar a maneira de acompanhar futebol no Brasil e abriu caminho para a presença feminina nas arquibancadas.

Nascida em 1934, nos arredores da Ponte dos Marinheiros, no Rio de Janeiro, Dulce fez história ao se tornar, há 70 anos, a primeira mulher a comandar uma torcida organizada no país. Em 1956, assumiu a presidência da Torcida Organizada do Vasco (TOV), função que exerceu durante duas décadas, até 1976.

A relação com o Clube, porém, ia muito além das arquibancadas. Dulce acompanhava treinos, frequentava eventos e mantinha proximidade com jogadores e dirigentes. No comando da TOV, também ajudou a estabelecer práticas que se tornariam tradicionais nas torcidas brasileiras, como o uso de papel picado, serpentinas e baterias.

Seu primeiro gesto à frente da organizada foi justamente em benefício de São Januário. Dulce mobilizou os torcedores para arrecadar 200 mil cruzeiros destinados à construção de duas quadras de basquete no estádio.

Nos primeiros anos, as reuniões da TOV eram realizadas na casa de Dulce, na Rua Aristides Lobo, no Rio Comprido. O apartamento funcionava como ponto de encontro para os vascaínos. Em entrevista à Revista do Esporte, em 1959, ela resumiu sua relação com os torcedores:

– Basta ser vascaíno para ser meu amigo, brincou Dulce Rosalina, na edição nº 13 da Revista do Esporte, de junho de 1959.

A paixão pelo Vasco também aparecia em declarações que traduziam sua disposição de acompanhar o time independentemente das circunstâncias.

– Pode chover até granizo; se o Vasco jogar, seja onde for, lá estarei conclamando meus ‘filhos’, os jogadores, a se empenharem cada vez mais em busca do triunfo, afirmou Dulce em 1959.

A popularidade da torcedora ultrapassou os limites de São Januário. Em 1960, Dulce venceu um concurso promovido pela Revista do Esporte e foi eleita a maior torcedora do futebol brasileiro.

– Dulce participava ativamente da vida do Clube. Ela acompanhava o Vasco em diferentes estádios do país, tinha contato próximo com jogadores e dirigentes e participava também da vida política. Em 1960, sua popularidade ultrapassou as fronteiras do Vasco. Dulce venceu um concurso promovido pela Revista do Esporte, que a elegeu como a maior torcedora do futebol brasileiro, conta Walmer Peres, coordenador do Centro de Memória do Vasco.

A presença de Dulce também ficou marcada na história de ídolos do clube. Foi ela quem batizou Geovani com o apelido de “Pequeno Príncipe”, após um encontro no aeroporto depois do primeiro título mundial da seleção brasileira sub-20, em 1983.

Em entrevista ao “Museu da Pelada”, em 2020, o ex-meia contou que Dulce o abraçou, parabenizou pelos seis gols marcados no torneio e pela escolha como melhor jogador da competição.

– Ela (Dulce Rosalina) me abraçou, me parabenizou pelos meus seis gols marcados na competição e, por ter sido escolhido o melhor jogador, a Dulce, na euforia, me chamou de ‘Meu Pequeno Príncipe’, na frente de todo mundo. Eu sorri, agradeci o carinho, abracei a causa e gostei, pois pequeno eu sei que sou, agora príncipe foi ela que me intitulou.

Outro episódio que ajuda a dimensionar a importância de Dulce para os vascaínos envolve um clássico contra o Flamengo. Segundo registros históricos, os jogadores do Vasco teriam se recusado a entrar em campo após saberem que a torcedora havia sido detida pela polícia na entrada do Maracanã por portar papel picado e por desacato. Os atletas afirmaram que só disputariam a partida depois que Dona Dulce fosse liberada. Ela acabou solta, e o Vasco venceu o rival por 4 a 2.

Para além das histórias e dos episódios que envolvem sua trajetória, o legado de Dulce também está preservado pelo Clube. Parte de seus registros está no acervo do Museu Vasco da Gama, mantido pelo Centro de Memória do Vasco. O material inclui fotografias e documentos, além de uma coleção digital com textos publicados por ela no jornal Voz de São Januário, na coluna “Cantinho da Torcida Organizada”.

– Preservar a memória de Dulce é preservar uma parte importante da história do Vasco. E isso significa ir além da ideia de que o patrimônio de um clube é formado apenas por troféus, camisas e documentos administrativos.

Entre os documentos preservados está o registro de uma homenagem realizada em 1980, na Sede do Calabouço, em comemoração aos 24 anos de liderança de Dulce. Diretores, beneméritos e sócios participaram da celebração, que a consagrou como a “Primeira-dama das arquibancadas”.

A trajetória de Dulce também é considerada importante para compreender a própria história das torcidas organizadas no Brasil.

– Ela nos permite enxergar a torcida não como um elemento secundário do espetáculo esportivo, mas como um sujeito histórico. As arquibancadas possuem personagens, práticas, linguagens, formas de organização, relações políticas e memórias próprias. A trajetória de Dulce ajuda justamente a contar essa história.

Mesmo após sua saída da TOV, Dulce continuou ligada às arquibancadas. Posteriormente, fundou a torcida Renovascão, mantendo a atuação junto aos torcedores vascaínos.

A história da torcedora ganhará ainda um novo capítulo no Carnaval de 2027. A G.R.E.S. União Cruzmaltina, escola ligada ao Vasco e que disputa a Série Bronze dos desfiles do Rio de Janeiro, terá Dulce como tema de seu enredo: “Dulce Rosalina: a mulher que vestiu coragem e presidiu a paixão”.

A proposta é destacar o simbolismo de Dulce na luta contra o preconceito e sua importância na abertura de espaços para que mais mulheres ocupassem posições de liderança no esporte.

Dulce Rosalina morreu em janeiro de 2004, vítima de problemas cardíacos. No mesmo ano, recebeu outra homenagem: uma rua próxima a São Januário passou a levar seu nome.

Setenta anos depois de assumir a liderança da TOV, sua presença continua representada no estádio que frequentou durante décadas. Para o Centro de Memória do Vasco, preservar sua trajetória também significa reconhecer que a história de um clube é construída diariamente por diferentes personagens.

– A história de um clube também está nas pessoas que construíram sua experiência cotidiana. Está nos atletas, dirigentes, funcionários, sócios, torcedores e nas diferentes comunidades que se formaram em torno do Vasco.

– Preservar Dulce Rosalina é preservar também a memória da torcida vascaína.

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