Cruz de Malta: o significado por trás do símbolo icônico do Vasco

Conheça a história, origem, simbologia e as controvérsias da famosa Cruz de Malta, marca histórica do Vasco da Gama.

Camisa do Vasco com a chamada Cruz de Malta, que, na verdade, é a Cruz Pátea
Camisa do Vasco com a chamada Cruz de Malta, que, na verdade, é a Cruz Pátea

Poucos símbolos no futebol brasileiro carregam tantas camadas históricas quanto a cruz presente na camisa do Vasco da Gama. Popularmente chamada de Cruz de Malta, ela é elemento central da identidade vascaína e originou o apelido “cruzmaltino”. No entanto, do ponto de vista histórico e heráldico, a questão é mais complexa. O Lance! explica o que significa a Cruz de Malta na camisa do Vasco.

Desde sua fundação, o Vasco adotou uma simbologia ligada às navegações portuguesas, ao mar e à tradição cristã. A cruz que estampa o uniforme dialoga com esse imaginário, mas não corresponde exatamente ao símbolo que muitos imaginam como “correto” para esse contexto histórico.

O que significa a Cruz de Malta?

As cores e a lógica das navegações portuguesas

O Clube de Regatas Vasco da Gama nasceu com forte inspiração marítima. As cores originais — preto e branco — não foram escolhas aleatórias:

O Clube de Regatas Vasco da Gama nasceu com forte inspiração marítima. As cores originais — preto e branco — não foram escolhas aleatórias:

  • O preto representa o desconhecido dos mares, a travessia incerta das grandes navegações
  • O branco, disposto em faixa diagonal, simboliza o caminho iluminado, a rota vitoriosa rumo ao destino

Dentro dessa lógica simbólica, seria natural que o clube utilizasse a Cruz da Ordem de Cristo, símbolo que ornamentava as velas das caravelas portuguesas no período dos descobrimentos, mas não foi isso que aconteceu.

A Cruz Pátea: o símbolo que se consolidou no Vasco

A cruz que efetivamente se estabeleceu no escudo e na camisa do Vasco é uma Cruz Pátea, também conhecida popularmente como Cruz de Malta.

Visualmente, trata-se de uma cruz com:

  • Braços que se alargam em direção às extremidades
  • Quatro pontas principais, formando uma figura simétrica e robusta

Essa cruz ficou historicamente associada à Ordem de Malta, oficialmente chamada de Ordem dos Cavaleiros Hospitalários de São João de Jerusalém, criada durante as Cruzadas.

É dessa associação que nasce o termo “cruzmaltino”, que se consolidou definitivamente no vocabulário vascaíno.

O significado histórico da Cruz de Malta

Na tradição medieval, a Cruz de Malta possuía forte carga simbólica. Seus oito pontos representavam, originalmente, as oito grandes divisões territoriais (as chamadas Langues) da ordem:

  • Auvergne
  • Provence
  • França
  • Aragão
  • Castela e Portugal
  • Baviera
  • Inglaterra (incluindo Escócia e Irlanda)

Com o tempo, esses oito pontos passaram a ser interpretados também como oito virtudes ou obrigações morais dos cavaleiros:

  • Viver na verdade
  • Ter fé
  • Arrepender-se dos pecados
  • Praticar a humildade
  • Amar a justiça
  • Exercer misericórdia
  • Agir com sinceridade
  • Suportar perseguições

A cruz moderna de Malta, tal como hoje reconhecida, apareceu formalmente no século XVI, em especial em moedas cunhadas em 1567, durante o grão-mestrado de Jean Parisot de La Vallette.

Cruz de Malta ou Cruz da Ordem de Cristo na camisa do Vasco?

Aqui está o ponto central da controvérsia histórica.

Do ponto de vista simbólico e histórico das navegações, a cruz mais coerente seria a Cruz da Ordem de Cristo, sucessora direta dos Templários em Portugal e símbolo que estampava as caravelas portuguesas.

Do ponto de vista visual, institucional e tradicional, o Vasco sempre utilizou uma Cruz Pátea, associada à Ordem de Malta — mesmo que essa ordem não tenha relação direta com as navegações portuguesas.

Ou seja:

  • O Vasco usa uma Cruz Pátea
  • É chamado de cruzmaltino por isso
  • Mas sua inspiração simbólica remete às navegações portuguesas, onde a cruz “historicamente correta” seria outra

Essa ambiguidade acompanha o clube desde sua origem.

A tentativa de correção histórica em 2011

Em 2011, o Vasco tentou resolver essa contradição. Em parceria com a Penalty, lançou uma camisa especial que trazia a Cruz da Ordem de Cristo, substituindo temporariamente a Cruz Pátea.

Na época, João Ernesto da Costa Ferreira, diretor de Patrimônio Histórico do clube, defendeu que:

  • A cruz correta, do ponto de vista histórico, seria a da Ordem de Cristo
  • A Cruz Pátea não correspondia às caravelas portuguesas

Apesar do debate, a mudança não se consolidou institucionalmente. A Cruz Pátea permaneceu como símbolo oficial, reforçada pelo peso da tradição, da memória afetiva e do reconhecimento popular.

Um símbolo que reflete a própria história do Vasco

A cruz do Vasco da Gama sintetiza as ambiguidades da própria fundação do clube. Trata-se de uma instituição que nasceu da união de portugueses e brasileiros, carregando referências históricas, simbólicas e culturais que nem sempre se alinham perfeitamente do ponto de vista acadêmico.

Tecnicamente, o Vasco utiliza uma Cruz Pátea.
Popularmente, é chamado de cruzmaltino.
Simbolicamente, reivindica a herança das navegações portuguesas.
Historicamente, reconhece que a cruz “correta” talvez fosse outra.

Essa sobreposição de sentidos não enfraquece o símbolo — ao contrário, o torna mais rico. A cruz vascaína não é apenas um elemento gráfico: é um resumo visual de identidade, memória e história.

Fonte: Lance!

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