Coutinho engorda lista de astros vindos da Europa que não vingaram no Brasil

Philippe Coutinho chegou ao Vasco da Gama no meio de 2024 e nunca conseguiu ter uma grande sequência de jogos.

Coutinho após choque em Mirassol x Vasco
Coutinho após choque em Mirassol x Vasco (Foto: Vinicius Silva/Gazeta Press)

A saída de Philippe Coutinho do Vasco é mais um exemplo de que uma carreira consolidada na Europa não é garantia de sucesso no Brasil. Após retornar ao Cruz-Maltino muito festejado, o meia sucumbiu à pressão e decidiu deixar o clube logo depois de jogo em que recebeu vaias da torcida. Como em outros casos, a chegada de um atleta com histórico positivo no “melhor futebol do mundo” gerou expectativas maiores que os resultados. Abaixo, o Lance! analisa diferentes aspectos deste cenário.

Coutinho sentiu pressão do futebol brasileiro

Em seu texto de despedida do Vasco, Coutinho falou em priorizar a saúde mental e destacou: “Ser julgado por inúmeras pessoas por algo que não faz parte do meu caráter é difícil demais”. O sentimento do craque é sintomático da paixão inerente ao futebol brasileiro. Na Europa, certamente enfrentou pressão ao vestir camisas de gigantes como Liverpool e Barcelona. Mas não igual: aqui, o mesmo amor recebido nos bons momentos vira cobrança na queda de desempenho.

Willian, multicampeão com a camisa do Chelsea e atualmente jogador do Grêmio, deixou o Corinthians em 2022 por críticas que extrapolaram os limites. Ao “ge”, relatou que até a sua família recebia ameaças.

— Quando voltei ao Brasil, voltei com muita vontade de jogar pelo Corinthians, sabia da pressão, da cobrança, das críticas que iria receber, mas não vim ao Brasil para ser ameaçado, para ter minha família ameaçada a cada jogo que perdia ou se eu não fizesse um bom jogo. Esse é o principal motivo. Sei que não são todos os torcedores, sei que é a minoria, mas ela acaba causando um impacto muito grande e um dano mental, principalmente nas minhas filhas. Emocionalmente isso afeta bastante — desabafou.

Atletas chegam ao Brasil longe do auge

É natural que o acerto de clubes brasileiros com astros do futebol europeu crie expectativas altas, recuperando as memórias dos momentos de maior brilhantismo. No entanto, a maioria dos atletas que fizeram esse movimento não estavam mais no auge físico e técnico. Coutinho, por exemplo, vinha de uma temporada no Al-Duhail, do Catar. Antes, saiu em baixa do Aston Villa, da Inglaterra.

Por mais que a empolgação sempre leve o torcedor ao apego com as melhores exibições dos reforços do seu time, normalmente o desempenho recente diz mais que as glórias do passado. Nada impede que uma soma de fatores acelere a adaptação de um jogador e ajude-o a retomar o auge, mas essa não costuma ser a regra, como os números abaixo exemplificam.

Philippe Coutinho

  • Última temporada na Europa (Aston Villa, 22/23): um gol e nenhuma assistência em 22 jogos
  • Melhor temporada na Europa (Liverpool, 16/17): 14 gols e 10 assistências em 36 jogos
  • Total no retorno ao Vasco: 17 gols e sete assistências em 81 jogos

Dimitri Payet

  • Última temporada na Europa (Marseille, 22/23): quatro gols e três assistências em 27 jogos
  • Melhor temporada na Europa (Marseille, 17/18): 10 gols e 23 assistências em 47 jogos
  • Total pelo Vasco: sete gols e 13 assistências em 75 jogos

Willian

  • Última temporada na Europa (Arsenal, 20/21): uma assistência e sete gols em 37 jogos
  • Melhor temporada na Europa (Chelsea, 17/18): 13 gols e 10 assistências em 55 jogos
  • Total pelo Corinthians: um gol e seis assistências em 45 jogos

James Rodríguez

  • Última temporada na Europa (Olympiakos, 22/23): cinco gols e seis assistências em 23 jogos
  • Melhor temporada na Europa (Real Madrid, 14/15): 17 gols e 17 assistências em 46 jogos
  • Total pelo São Paulo: dois gols e quatro assistências em 26 jogos

Arturo Vidal

  • Última temporada na Europa (Inter, 21/22): dois gols e quatro assistências em 41 jogos
  • Melhor temporada na Europa (Juventus, 12/13): 15 gols e oito assistências em 45 jogos
  • Total por Flamengo e Athletico-PR: dois gols e três assistências em 60 jogos

Muitas vezes, jogadores que saem da Europa para o Brasil em seus auges físicos têm garantia maior de sucesso. É o caso de Andreas Pereira e Vitor Roque, reforços recentes do Palmeiras, ou mesmo de Jorginho, do Flamengo, que, apesar da idade mais avançada e perda de espaço no Arsenal, convivia com pouquíssimas lesões e chegou com fôlego para aguentar sequências de jogos.

O impacto da queda de rendimento físico

Comprometido com o Vasco, Coutinho até bateu o seu recorde de jogos em uma temporada: 56 partidas em 2025. É claro que, para isso, precisou controlar a intensidade ao longo dos confrontos. Muitas vezes, isso gerava debate sobre a possibilidade de utilização de atletas com mais vigor físico e pressionava o meia para que, tecnicamente, fizesse a diferença. Logicamente, porém, astros desse calibre recebem atenção especial dos sistemas defensivos para complicar tal missão.

No ano passado, os resultados expressivos de brasileiros em jogos contra europeus no Mundial de Clubes geraram debate sobre a real diferença de nível entre os continentes. O principal argumento para o equilíbrio, porém, foi que os times do Velho Continente não estavam no auge físico. Ainda assim, em partidas de vantagem dos gigantes estrangeiros, como a vitória por 4 a 2 do Bayern de Munique sobre o Flamengo, a intensidade pareceu decisiva.

Mas se a capacidade física é o principal diferencial do futebol europeu, como já foi ressaltado por atletas com passagens pelas duas realidades, a regra não se aplica para atletas já distantes de seu auge. E isso fica mais evidente em jogadores que sempre se destacaram nesse quesito, como o chileno Arturo Vidal, que, já veterano, não conseguiu imprimir o mesmo ritmo no Brasil.

Além disso, outros fatores pesam para a dificuldade de se repetir tamanha intensidade no país tupiniquim, como o calendário agitado, as diversas viagens e o clima quente.

— A intensidade pode ser diferente (Europa x Brasil), mas isso depende de vários fatores. O clima no Brasil não deixa a gente competir na mesma intensidade. Com calor, é difícil você correr o mesmo tanto que na Europa. Mas a qualidade técnica aqui é praticamente igual. Acho que no Brasil os jogadores têm mais qualidade técnica que na Europa. Lá, eles vão ter mais intensidade, mas eu quero ver o Bayern correr tudo que eles correm lá na Bahia, no Ceará (risos). Aí o bicho pega. Viagem longa, são situações diferentes, é difícil comparar — opinou Andreas Pereira, durante sua passagem pelo Flamengo em 2021.

Diante de tantos desafios, seja por lesões ou preservação física, alguns atletas de alto nível precisam se poupar de jogos para performar em alto nível. Assim, não conseguem entregar tanta regularidade, mas decidem partidas cruciais. É o caso dos extraclasses Neymar e Memphis.

Neymar pelo Santos em 2025:

  • 11 gols e quatro assistências em 28 jogos
  • Fez cinco gols em três jogos em sequência salvadora contra o rebaixamento

Memphis pelo Corinthians em 2025:

  • 12 gols e 10 assistências em 51 jogos
  • Fez gol nas oitavas, semi e final da Copa do Brasil

Características dos jogadores e adaptação

A amostragem do Mundial de Clubes ajudou a entender que logicamente existe diferença de nível entre europeus e brasileiros, mas não são dois universos completamente opostos. Por isso, não faz sentido se esperar que jogadores façam no Brasil algo que fuja de suas características ao longo de toda a carreira no Velho Continente.

Um bom exemplo é o meia-atacante Felipe Anderson, que chegou ao Palmeiras em 2024 com altíssimas expectativas, muito por ainda ter mercado na Europa. Em seu início no futebol brasileiro, com a camisa do Santos, não era um jogador de constante desequilíbrio. No Velho Continente, evoluiu especialmente taticamente, mas não se notabilizou por entregar grande volume de gols e assistências. Aos poucos, conforme o alarde diminuiu, o meia ganhou mais espaço no Alviverde com Abel Ferreira. Talvez, inicialmente, tenha se criado uma ideia irreal das características do jogador.

Também é fundamental ressaltar como atletas que nunca jogaram no Brasil ou ficaram anos distantes do país passam por um período de adaptação, como qualquer transformação entre ligas, que pode explicar passagens frustrantes de nomes bem-sucedidos. O lateral-direito espanhol Juanfran, que se notabilizou mais por características defensivas do que a técnica tão valorizada pelos brasileiros, explicou as dificuldades de transição logo no início de sua trajetória no São Paulo, em 2019.

— Sensação diferente. O jogo é diferente, os treinamentos são diferentes, aqui é muito mais longo. Na Espanha são mais curtos e mais intensos. Na Europa, o jogo é muito mais elaborado, aqui é muito mais rápido, muito mais força, mais briga — falou à “ESPN”.

Craque é craque

Obviamente, não é possível banalizar a vinda de jogadores da Europa para o Brasil: cada um tem nível e características diferentes. Por mais que Coutinho tenha construído uma carreira de incontestável sucesso, especialmente em seu auge no Liverpool, teve trajetória de altos e baixos no Velho Continente.

Já um craque absoluto, como o uruguaio Luis Suárez, que desempenhou no mais alto nível em todos os lugares por onde passou, replicou o brilhantismo no Grêmio. Mesmo com problemas no joelho, o atacante levou o Tricolor ao vice-campeonato brasileiro, com números excelentes e prêmios individuais. Outro gigante da história do futebol, Ronaldo Fenômeno conseguiu impacto similar em seu retorno ao Corinthians.

Luis Suárez pelo Grêmio (35 anos):

  • 29 gols e 17 assistências em 54 jogos

Ronaldo Fenômeno pelo Corinthians, (33-35 anos):

  • 35 gols e seis assistências em 69 jogos

Coutinho e tantos outros não acabaram com o futebol brasileiro

“Vai acabar com o futebol brasileiro!”. Contratações como a de Coutinho e outros nomes citados geraram comentários do tipo. Mas os exemplos mostram que o futebol brasileiro está longe de ser um “parque de diversões’, ainda mais para quem já não está no auge. No fim, as expectativas contribuem para avaliações frustrantes de passagens de grandes atletas pelo Brasil. Contudo, isso faz parte e não vai mudar. Cabe aos astros, então, lidarem com a responsabilidade.

Fonte: Lance!

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