Renato faz o oposto de Diniz e reforça nova faceta do Vasco no Brasileiro

O técnico Renato Gaúcho inicia trabalho no Vasco da Gama devolvendo a competitividade e confiança ao time.

Renato Gaúcho em Vasco x Grêmio em São Januário
Renato Gaúcho em Vasco x Grêmio em São Januário (Foto: André Durão)

A vitória sobre o Grêmio, em São Januário, reforçou uma nova faceta do Vasco no Brasileiro: a de um time vertical e resiliente. Sob o comando de Renato Gaúcho, a equipe chegou à terceira vitória em quatro jogos e voltou a mostrar competitividade — agora sem precisar sair atrás no placar.

Com o resultado, o cruz-maltino alcança 11 pontos e se aproxima do G4, a apenas três de distância, consolidando um início de trabalho que já devolve competitividade e confiança ao time. O novo treinador faz o oposto de Diniz em termos de ideias, mas o jogo mostra que isso tem prós e contras.

Mesmo jogando em casa, Renato não escondeu sua preferência tática para o Vasco: manteve o esquema com três volantes, recuou Hugo Moura para iniciar as jogadas ao lado de Robert Renan e Saldivia e liberou a equipe para um recurso mais direto — a bola longa.

Sem a bola, Paulo Henrique voltava para formar a linha de três. Com a posse, o time acelerava pelos lados, sobretudo com Cuiabano mais adiantado, transformando defesa em ataque em poucos toques. Nada de sair jogando desde o goleiro. Léo Jardim mal tocava na bola — com os pés, menos ainda.

Plano vertical e vantagem rápida

E foi assim, de forma conservadora e eficaz, que o jogo logo se abriu para o Vasco. Aos sete minutos, Gómez roubou a bola no campo do Grêmio e acionou Hugo Moura, que lançou David. O atacante ganhou de Pavón, invadiu a área e rolou para Cuiabano chegar de trás. A finalização desviou em Thiago Mendes e matou Weverton. Gol dado para o volante, com a cara do plano de jogo inicial: recuperação, velocidade e poucos toques até a finalização.

— Futebol é resultado. Quero que o time fique com a bola para não sofrer e vença. Mas, se tiver que escolher, prefiro os três pontos — sentenciou Renato, aliviado após o resultado. — Tem horas em que é preciso fechar a casinha. Não adianta ter quatro atacantes sem ter a leitura de que o time está sofrendo.

À frente no placar, o Vasco recuou ainda mais suas linhas. Marcava atrás, interrompia o jogo com faltas quando necessário e saía em contra-ataques perigosos. O Grêmio tinha mais a bola, trocava passes, explorava os lados, mas tinha pouca efetividade. Segundo Luis Castro, o plano de jogo era explorar os corredores para evitar exatamente o jogo mais vertical do Vasco de Renato.

Já o Vasco mobilizava sua torcida de outro jeito — cada desarme, cada corrida para recompor, cada arrancada era celebrada como um pequeno triunfo. Gómez simbolizava isso. As subidas de Cuiabano e do colombiano eram os principais atalhos. Aos 25, foi a vez de PH cruzar da direita e encontrar Thiago Mendes, que cabeceou em cima de Weverton. Na sequência, Gómez fez fila pela esquerda e quase ampliou. O segundo gol amadurecia — e veio. Aos 33, em mais um erro na saída gremista, Cuiabano avançou livre e cruzou rasteiro para David, sozinho, empurrar para a rede.

Bola para o mato e química com a torcida

A partir daí, o Vasco flertou com o risco. Aos 37, Robert Renan tentou sair jogando com excesso de confiança dos tempos de Diniz e entregou a bola. Nardoni avançou, a jogada seguiu viva na área e sobrou para Carlos Vinícius girar e bater no canto. Léo Jardim ainda se esticou, mas não alcançou.

— O duro no futebol é tomar gol e não fazer. A gente está fazendo. Não pode proporcionar chances. Tomamos um gol por culpa nossa. Essa é a atenção que precisa ter. Tomamos gol nos quatro jogos e ganhamos 10 pontos. Quero sempre tomar quatro e fazer cinco — emendou Renato, ignorando a forma como o Vasco jogou nesse momento. Segundo ele, a evolução virá com o tempo.

O gol mudou o clima em São Januário e no banco, com Renato irritado. Até então senhor do seu roteiro, o Vasco virou passageiro da própria ansiedade. Recuado, passou a sofrer pressão até o intervalo, sem conseguir sair do campo de defesa, enquanto o Grêmio, mais direto, trocava a beleza pela urgência. O controle do Vasco já não era mais tão claro — e o jogo, menos ainda.

No segundo tempo, o Grêmio voltou confiante após a reação e com mexidas de Luis Castro para tornar o time mais ofensivo. Com a vantagem, o Vasco se armou de vez para jogar por uma bola. Renato lançou Hinestroza no lugar de Nuno e passou a ter dois pontas para arrancadas. Gómez ainda era a principal arma ofensiva ao lado de Cuiabano pela esquerda. O atacante tentou duas jogadas individuais e, na segunda, quase acertou um belo chute. A torcida empurrava na busca pelo terceiro gol. Cuiabano, melhor da partida, cansou, e deu lugar a Piton, sem cacoete ofensivo.

— Falei quando cheguei que estava com bastante tesão e queria ver a equipe se entregando. A gente não tem aquela qualidade toda, mas não tem nenhum bicho-papão. O importante é essa entrega. Por isso o torcedor está animado — comentou Renato, colocando a dedicação acima até do resultado.

Jardim evita empate

O Vasco voltou a ter protagonismo nos minutos finais e passou a ficar mais com a bola no campo de ataque. Renato fez trocas, deu chance a Matheus França e Rojas e não queria a bola batendo no ataque e voltando com mais centroavantes. Gómez teve oportunidades e errou o alvo nas jogadas mais verticais, mas simbolizava um Vasco valente. Na defesa, bola para o mato, que é jogo de campeonato. Esqueçam o modo Diniz. Léo Jardim salvou uma boa jogada de Braithwaite. E o Vasco só não ampliou por ainda não ter conseguido exercitar a simplicidade de Renato na plenitude.

— Falei para ele (Gomez): Romário fez mais de mil gols, muitos de bico. Foi dar mais um toque e perdeu a bola. Podia dar um bico. Feio é não fazer gol, como dizia o Dario — ensinou Renato Gaúcho, citando artilheiros do passado.

No fim, o Vasco não ampliou — e soube sofrer, para a catarse de São Januário e de Renato.

— Não pode não ganhar a partida e não ter a entrega. Mais uma vez, o torcedor está de parabéns, fez uma festa bonita. Desde a minha chegada, essa energia tem aparecido. Temos agradecido, e essa química é importante depois dos jogos. Com o tempo, vamos ter mais confiança em campo para eles desempenharem a qualidade de cada um — finalizou o comandante.

Fonte: O Globo

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