Polêmica pelo setor sul virou novo vexame para o futebol carioca

A final entre Vasco e Fluminense pela Taça Guanabara era para ser uma grande festa, mas acabou envergonhando o futebol.

Final da Taça Guanabara entre Vasco e Fluminense. Um domingo para o futebol carioca se envergonhar. Um fim de semana em que uma disputa entre os clubes por lado da arquibancada terminou com 29 pessoas no posto médico, duas no hospital, quatro na delegacia, sem que ninguém até o momento assumisse sequer uma parcela de culpa por mais cenas de violência no entorno do Maracanã.

A indefinição sobre a abertura ou não dos portões levou milhares de pessoas, a imensa maioria vascaínos, à porta do estádio na esperança de entrar. A notícia de que os portões permaneceriam fechados serviu como estopim. E, depois de explodirem bombas e voarem garrafas e balas de borracha, entendeu-se que não abrir os portões trazia mais perigo do que solução.

Três fatores são preponderantes para compreender o que se passou em mais um domingo de caos no futebol carioca: a deterioração da relação entre Fluminense e Maracanã e a vontade da concessionária de romper o contrato, com uma mudança de entendimento da gestão atual, do presidente Mauro Darzé, em relação às administrações anteriores, quanto a interpretação do contrato; uma negociação até então silenciosa com o Vasco, alardeada à tarde pelo presidente Alexandre Campello; e uma disputa de orgulho dos clubes colocada à frente da segurança do torcedor.

Entenda a disputa pelo setor sul

Fluminense e Vasco divergem desde 2013 quanto sobre a prerrogativa de utilizar o setor sul do Maracanã em clássicos entre os clubes. O Tricolor argumenta direito contratual, enquanto o Cruz-Maltino alega direito histórico.

A divergência remonta a 1950. Na época, ficou decidido que o campeão carioca teria o direito de escolher onde posicionar a torcida e o Vasco optou pelo lado direito às cabines de imprensa. Em 2013, porém, o Fluminense assinou um contrato com o consórcio que administra o estádio que definiu que o Tricolor utilizaria o setor sul do estádio, à direita das cabines, e o Flamengo, que também assinou com a empresa, o setor norte. A ideia da divisão é que ambos os clubes pudessem personalizar seus espaços. Problema criado com o Vasco.

Desde a reabertura do Maracanã, este foi o décimo clássico entre Flu e Vasco no estádio. Em todos eles, houve discussão sobre o lado. No entanto, independentemente do mandante, a torcida tricolor acabou ocupando o Setor Sul.

Na gestão atual da concessionária, com a deterioração da relação com o Fluminense e a inadimplência do clube, o entendimento da empresa mudou. A empresa passou a defender o clube de São Januário abertamente. Enviou posições oficiais reforçando uma interpretação contrária à tricolor do contrato vigente. O Maracanã entende que o Flu só tem direito a utilizar o lado do contrato quando mandante. O Flu defende que, como visitante, só sairia do setor sul mediante a acordo, o que não ocorreu.

O que diz o contrato

“Nas Partidas Oficiais, contra quaisquer outros dos Principais Clubes do Rio de Janeiro, a torcida do FLUMINENSE acessará e se posicionará no setor Sul do Estádio (lado UERJ), em sua integralidade, através das entradas, acessos e rampas correspondentes e disponíveis para esse setor, salvo haja ordem expressa em sentido contrário por parte de:

(i) Órgãos Públicos especificamente por questões de segurança;
(ii) salvo acordo expresso entre o FLUMINENSE e a equipe visitante; e
(iii) nos casos em que o FLUMINENSE for visitante, a CONCESSIONÁRIA poderá, para fins comerciais, mediar acordo entre o FLUMINENSE e o clube mandante, resguardados os direitos do FLUMINENSE previstos neste contrato”

Vale ressaltar que o contrato entre Fluminense e a concessionária trouxe problemas desde o início. Um compromisso de 35 anos assinado pela empresa, que chegou a causar briga interna em sua diretoria na época, pois dava ao clube das Laranjeiras toda a receita dos setores populares, sem nenhum custo de operação do estádio, deixando a receita de bares e dos setores mais caros para a administradora do Maracanã. O resultado foi lucro para o clube e prejuízo para a empresa, a ponto de se firmar um aditivo, válido por meses, ainda na gestão Peter Siemsen, garantindo alguma receita para a concessionária. Termo que, depois, foi validado de forma permanente pela Justiça, provocando prejuízos em série para o Tricolor.

Uma confusão anunciada

Neste domingo, essa disputa entre direito contratual e tradição chegou ao ápice. Ninguém cedeu. O presidente do Vasco, Alexandre Campello, após ter obtido o mando de campo por sorteio, disse ter comunicado à concessionária que só jogaria a final no Maracanã se tivesse sua torcida garantida no setor sul. A empresa concordou. E o Tricolor, baseado no contrato em vigor apesar da dívida com o estádio, quis fazer valer o que entende como seu direito de ocupar o setor sul.

A disputa começou logo após a classificação tricolor diante do favorito Flamengo. No dia seguinte, o Vasco, com a operação da venda de ingressos iniciou a comercialização de bilhetes do setor sul para seus torcedores. O Fluminense não aceitou. Barrou bilheteiros do Vasco nas Laranjeiras e obteve decisão judicial confirmando seu direito de ocupar o setor sul, mas a esta altura cerca de 18 mil ingressos já estavam vendidos.

Advogados do Fluminense foram a São Januário na noite de sexta-feira. Queriam entregar a primeira decisão judicial. Mas funcionários cruz-maltinos, sob o argumento de que não eram oficiais de Justiça, recusaram a entrega.

No sábado, prevaleceu a falta de definição. Era difícil informar com precisão onde estavam sendo vendidos ingressos para cada torcida, ainda mais para qual setor cada uma poderia comprar. Uma reunião na sede da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (Ferj) com os presidentes do clube e do consórcio Maracanã terminou sem consenso.

E a entrevista de Pedro Abad no fim da tarde acirrou ainda mais os ânimos. O mandatário convocou seus torcedores à “guerra” no sentido de ir ao estádio em peso e falou, sem citar nomes, em responsabilizar “quem provocou essa aberração” por possível violência e confusão. O dirigente revelou também que seus advogados foram ameaçados ao tentar entregar a decisão da Justiça na sexta-feira. Pouco depois, a PM prontamente externou sua preocupação, materializada no aumento do efetivo para o clássico com especial atenção à área externa.

Decisão na madrugada

Já era madrugada deste domingo quando o plantão do Judiciário determinou que o Vasco x Fluminense seria com portões fechados. A desembargadora recusou um agravo do Cruz-Maltino para derrubar a liminar e aceitou o pedido do Tricolor de não abrir o jogo para o público. Justificou a medida pelo “risco de conflito” e pelo contrato não ser claro quanto à posição da torcida tricolor quando o clube é visitante.

O Tricolor pediu então aos seus torcedores que não viessem ao Maracanã, obedecendo a decisão judicial. O Cruz-Maltino, por sua vez, insistiu na abertura dos portões, mas teve um pedido de reconsideração negado na Justiça.

Força-tarefa para abrir os portões

Pela manhã, o Governo do Estado do Rio de Janeiro, através do secretário de Esportes, entrou na jogada e se reuniu com a Ferj para tentar buscar uma solução para que a partida fosse realizada com portões abertos. Convocou uma reunião de emergência com os clubes na Ferj e Polícia Militar. A intenção era convencer o Fluminense a reconsiderar a posição na Justiça, o que permitira a abertura dos portões. O Tricolor manteve-se irredutível.

Mesmo assim, ficou decidido na reunião que o Vasco assumiria o risco do descumprimento da decisão da Justiça, que apontava R$ 500 mil de multa para o clube e a concessionária no caso de os portões serem abertos, além de possíveis futuras sanções.

Por volta das 14h30, o Cruz-Maltino divulgou que os portões seriam abertos às 15h. O entorno do Maracanã, que já estava movimentado, ficou ainda mais cheio. A torcida vascaína começou a formar filas. Só faltou combinar com a Justiça. A decisão de momento mantinha portões fechados. E a Polícia Militar e o Juizado do Torcedor afirmaram que só efetuariam a abertura dos portões com autorização judicial.

Sem acordo, foi elaborada uma ata assinada por autoridades públicas, Vasco, Ferj e concessionária, e levada ao Jecrim para solicitar a abertura dos portões, alertando que o risco de os manter fechados era maior do que descumprir a decisão.

Não foi suficiente. E a promessa do Vasco ia pelo ralo, assim como a paciência dos já milhares de torcedores aglomerados nas grades. A essa altura, os times já estavam prestes a entrar em campo.

Próximo das 17h, foi divulgado pela Ferj que o Juizado não autorizaria a abertura dos portões. Foi a senha para o acesso ao Maracanã virar uma praça de guerra. Uma confusão anunciada, que terminou com bombas, gás de pimenta e 29 atendimentos médicos no estádio, com duas remoções de feridos para o hospital Souza Aguiar.

No meio da aglomeração em volta da grade na Rua Professor Eurico Rabelo, havia crianças e idosos. Pessoas se machucaram, e o futebol carioca foi novamente exposto pela falta de organização e respeito ao torcedor.

Jogo começa com portões fechados...

Dentro do Maracanã, Vasco e Fluminense atuavam para arquibancadas vazias. O silêncio era cortado pelo estouro das bombas na confusão do lado de fora do estádio.

...e termina com portões abertos

Depois de todos os confrontos, uma reviravolta com meia hora de jogo. O plantão do Judiciário, observando que se confirmava o temor de confusão generalizada com os portões fechados, autorizou a entrada dos torcedores.

Quando os portões foram abertos e os primeiros torcedores surgiram na arquibancada, os dirigentes no camarote do Vasco aplaudiram.

Como mal vendeu ingressos, pouquíssimos tricolores apareceram. A torcida do Vasco, por sua vez, tomou o tão cobiçado setor sul e comemorou o fato tanto quanto o título que viria a conquistar uma hora depois.

Dentro de campo, o jogo começou morno e foi esquentando com o passar do tempo. Ao fim, o Vasco venceu o Fluminense por 1 a 0, com gol de Danilo Barcelos, e conquistou a Taça Guanabara.

Sem mea-culpa

Após a partida, o presidente do Vasco, Alexandre Campello, disse que o clube respondeu dentro de campo. Disse que pregou paz e tranquilidade, mas ''lutando'' pelos seus ideais. Representante do Fluminense, o gerente geral Fernando Simone seguiu dizendo que o seu clube é o menos culpado e reforçou a questão contratual e as decisões da Justiça. O prejudicado, mais uma vez, foi o torcedor. E também o futebol carioca, com as imagens correndo mundo.

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