Dona de quiosque cita dificuldades e sofre com a falta da torcida em São Januário

Denize Aparecida, dona de quiosque em frente a São Januário, citou as dificuldades pagar as contas e sustentar a casa após pandemia.

Denize em seu quiosque em frente a São Januário
Denize em seu quiosque em frente a São Januário (Foto: Roberto Moreyra/Agência O) Globo

Denize Aparecida, 47 anos, sentada em uma cadeira branca de plástico, parece distraída. Todos os dias, abre o quiosque em frente a São Januário na expectativa de vender uma água, quem sabe um biscoito, mas o movimento é fraco. Tem meses em que fica bem difícil pagar as contas e sustentar a casa na Barreira, em que vive com o casal de filhos.

De vez em quando, recebe mensagens de antigos clientes, torcedores vascaínos que batiam ponto no local antes e depois das partidas: “daqui a pouco vamos nos ver novamente”, afirmam. Ela não tem tanta certeza: “Mas quando?”, responde. Nessas horas, a melancolia chega com força.

— Quem dera fosse possível voltar no tempo, né? Ou que esse vírus não existisse.

Hoje completa-se um ano desde a última vez que um estádio dos grandes do Rio recebeu público, no jogo entre Vasco e Goiás, pela Copa do Brasil. Nos dias seguintes, a rodada do Carioca já foi disputada com portões fechados.

Depois, o futebol parou. Quando voltou, a torcida seguiu vetada para evitar a disseminação da Covid-19, sem sinais de quando poderá frequentar os jogos. Um ano de saudade para torcedores e todos aqueles cujas vidas giram em torno da experiência de ir a um estádio de futebol.

Para muitos, como Denize, há dez anos vivendo da presença da torcida em São Januário, não é preciso estar dentro do estádio para fazer do esporte seu ganha-pão. No lado de fora do Maracanã há 25 anos, Cláudio Henrique Pinto, de 49, é figura conhecida em frente à estátua do Bellini. Ele guarda na barraca cheia de penduricalhos para turistas uma reportagem antiga de jornal, em que aparecia sorridente e mais jovem.

É possível ver que o cabelo ficou grisalho com o passar dos anos. Já o sorriso, impossível reconhecer porque está coberto pela máscara do Flamengo. Uma van estaciona despejando pessoas num ritmo de fast-food: cinco minutos para olhar a barraca, tirar uma selfie em frente ao estádio e depois seguir viagem. Cláudio Henrique atende os fregueses com pressa, tenta vender algo, não consegue e se volta para a reportagem:

— Ficou muito ruim assim que o futebol parou. A torcida do Flamengo veio aqui uma vez e distribuiu duas cestas básicas para os ambulantes. Ajudou.

Antes disso, Cláudio viveu o auge. Com sorte, vendia até R$ 1,5 mil em um só dia para torcedores no pré-jogo. Camisas, bandeiras, imã de geladeira, faixas de campeão. Parece até pegadinha do destino, um baque tão grande como a pandemia logo depois de viver um 2019 de sonho, com o time vencendo em campo e a torcida do Flamengo, feliz, fazendo a festa do ambulante fora dele.

Perigo no Nilton Santos

Cláudio, que sai diariamente do Complexo da Maré para trabalhar na calçada do Maracanã, teve de se reinventar. No auge do isolamento social, só quem passava em frente ao Bellini eram os moradores do bairro, fazendo exercícios para aliviar as tensões da pandemia. As bandeiras e camisas foram deixadas de lado e ele passou a vender água de coco e suco de laranja.

Denize e Cláudio vislumbram ansiosamente duas coisas: a permissão para a torcida voltar aos estádios seria o melhor dos mundos. Enquanto não é possível, aguardam o retorno do auxílio emergencial. Ambos receberam em 2020 e o dinheiro foi importante para que sobrevivessem melhor. Para o comércio no entorno do Nilton Santos, não houve o mesmo remédio.

Na Rua José dos Reis, onde fica a entrada do estádio com as estátuas dos ídolos alvinegros, o cenário é desolador: bares que antes foram points dos torcedores fechados. O medo da violência crescente é tanto que a reportagem é avisada para guardar a câmera fotográfica na bolsa para não chamar a atenção.

Quem ainda não entregou os pontos, sofre. É o caso de Rosângela Teixeira Seabra, 66 anos, que toma conta de uma mercearia com o filho. O negócio, aberto em abril de 2019, enfrentou as dificuldades naturais de todo empreendimento. Mas o baque da pandemia com menos de um ano foi pesado. As prateleiras praticamente vazias e as luzes apagadas dão ar de decadência.

— Estamos à beira da falência, não tenho vergonha de dizer. Estamos tentando passar o ponto para evitar um pouco do prejuízo.

Além da perda financeira, a impossibilidade de os torcedores frequentarem os estádios causa efeito emocional. Denize lembra saudosa do convívio com os torcedores: em dia de jogo às 16h, abria o quiosque em frente ao estádio de São Januário às 8h e, dependendo do resultado, fechava apenas depois de meia-noite. Sem problema algum.

— Eu adorava, trabalhar com público para mim é um prazer. Que saudade que dá.

Suellen Christine Rocha de Andrade, 28 anos, certamente é desses torcedores que fazem a dona do quiosque suspirar. Vendedora de uma loja oficial do Vasco, ironia, procura desafogo dos estresses do trabalho justamente em São Januário. Muitas vezes, o jogo era um detalhe. Valia mais a socialização de até quatro horas antes da partida começar, ao lado de amigos que conseguia encontrava apenas em dias de jogos:

— Sempre foi lugar para eu esquecer os problemas. Quando não tinha nada para fazer, mesmo sem ser em dia de jogo, combinava com os amigos de se encontrar na Barreira. Era o nosso programa de fim de semana.

A ida ao estádio, para algumas pessoas, remete a laços ainda mais profundos, familiares. Filha de pai alvinegro, Lídia Michelle Azevedo, 34 anos, é jornalista e tem na ida ao Nilton Santos um hábito que divide com o irmão mais velho, sócio-torcedor do Botafogo, assim como ela.

Nos jogos, abraçava a cadeira da frente para “evitar” um gol do adversário. Depois das vitórias, descia a rampa do setor Leste Superior e se misturava à multidão de torcedores, trocando abraços com desconhecidos, cantando bem alto as músicas que só são plenas em um estádio de futebol.

— Estou com muitas saudades e triste porque não pude abraçar o Botafogo como ele precisava em 2020.

Quando o momento do time é bom, a falta do estádio é ainda maior. Antes da pandemia, Cláudio muitas vezes trabalhava até duas horas antes do jogo do Flamengo começar. Saía correndo para casa, deixava sua mercadoria e voltava para assistir à partida.

Já a torcedora Luiza Nascimento sente a tristeza bater sempre que passa perto do Maracanã e não pode ver o rubro-negro jogar:

— Perdi parte do meu dia a dia. Está sendo muito difícil.

Fonte: O Globo Online

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