Vasco relembra grandes personagens negros da sua história; veja

O Vasco da Gama homenageou os grandes personagens da sua história ao longo desses 121 anos, no dia da Consciência Negra.

No dia da Consciência Negra, o Vasco, clube que abriu portas para os negros no futebol brasileiro, homenageia grandes personagens da sua história. De Nelson da Conceição até Pai Santana, o Cruzmaltino teve vários negros com uma importância fundamental para a instituição ao longo desses 121 anos. Relembre alguns deles.

NELSON DA CONCEIÇÃO

Nelson da Conceição nasceu em 12 de agosto de 1899, em Nova Friburgo, no Estado do Rio de Janeiro. Mudou-se ainda criança para a Capital Federal, com sua mãe Carlota Laura da Conceição. Na urbe carioca começou a disputar partidas oficiais de futebol ainda muito jovem, com apenas 15 anos. Iniciou sua carreira futebolística em 1915, no Paladino Football Club, instituição filiada à Liga Metropolitana de Sports Athleticos (LMSA, depois LMDT). Em 1916, já atuava pelo Engenho de Dentro Athletico Club, onde se tornou tricampeão da Liga Suburbana (1916/1917/1918), a maior de todas as ligas do subúrbio.

O jovem Nelson da Conceição chegou ao Club de Regatas Vasco da Gama em 1919, com a missão de assumir a titularidade do gol cruzmaltino. Desde o seu antigo clube, Engenho de Dentro AC, e principalmente no primeiro ano de Vasco, Nelson da Conceição sofria com considerações pejorativas relacionadas ao seu ofício, "chauffeur" de praça (o que podemos compreender atualmente como taxista), e também à sua forma coloquial de falar. As críticas e o preconceito contra Nelson eram emitidos por jornais e revistas da época, e por adversários e torcedores rivais nos jogos contra a poderosa equipe vascaína.

A função de chofer era proibida pela Liga Metropolitana de Desportos Terrestres. Esse ofício era estigmatizado, sendo visto por boa parte da sociedade de então como uma prática destinada a indivíduos de baixa escolaridade e menor poder aquisitivo, com forte presença de pessoas negras. Na visão daqueles que comandavam o futebol carioca, os indivíduos de classe social menos abastada desempenhavam atividades caracterizadas por serem braçais e com baixo uso da intelectualidade.

No Vasco, Nelson foi deslocado para o comércio, onde trabalhava como atendente na Casa Alberto, localizada na Praça da República, e de propriedade do grandíssimo vascaíno Aberto Balthazar Portella. Embora não fosse um ofício característico das categorias sociais mais elevadas, a função de atendente no comércio era relevada. Assim, o goleiro escapava da perseguição racial e social da Liga Metropolitana e dos clubes que a dominavam.

Em 1922, o "Clube de Santa Luzia" conquistou a vaga para disputar, no ano seguinte, pela primeira vez em sua história, o Campeonato da Cidade contra os principais clubes do Rio de Janeiro. O ano de 1923 foi especial em todos os sentidos para Nelson, para o Vasco e para o futebol carioca. De uma só vez, Nelson da Conceição se tornou o primeiro goleiro negro a ser Campeão Carioca, a defender a Seleção Carioca e a Seleção Brasileira.

O Vasco fez uma campanha avassaladora naquele ano, derrotando um a um os seus rivais e terminando o campeonato com 11 vitórias no total. No dia 12 de agosto de 1923, no mesmo dia em que completava 24 anos, Nelson ajudou o "Clube da Cruz de Cristo" a ganhar o título de Campeão da Cidade do Rio de Janeiro (Campeão Carioca).

O grande "keeper", por sua técnica e dedicação, se consagrava como um ídolo histórico do Clube, ajudando-o a tornar-se um Gigante do esporte nacional.
Nelson da Conceição atuou em 191 jogos pelo Vasco, somando 122 vitórias, 27 empates e 42 derrotas. Em 1924, sagrou-se Bicampeão, conquistando com o Gigante da Colina o Campeonato Carioca daquele ano, de forma invicta.

O ídolo vascaíno participou do jogo inaugural de São Januário, mas foi perdendo espaço no decorrer de 1927. No ano seguinte, deixou o Vasco para defender a equipe do Syrio Libanêz/RJ, seguindo depois para o Bangu, em 1929. Os anos se passaram e Nelson voltou ao Engenho de Dentro/RJ, atuando como treinador.

No dia 24 de abril de 1942, o primeiro grande ídolo negro do Vasco faleceu. Estava internado no Hospital Gaffrée e Guinle, com suas despesas custeadas pelo Vasco. Neste ano de 2019, o Clube presta uma homenagem ao seu ídolo histórico. A camisa para os jogadores de linha é predominantemente branca, com golas e detalhes na manga na cor preta. O calção também é preto. A inspiração está em um dos modelos de uniforme utilizado pelo goleiro Nelson da Conceição.

ADHEMAR FERREIRA DA SILVA

Adhemar Ferreira da Silva, o homem que quis ser atleta, mas foi muito além disso. Como se não bastasse ser bicampeão olímpico, tricampeão pan-americano, pentacampeão sul-americano no atletismo, Adhemar formou-se em Educação Física, Direito e Relações Públicas. Foi escultor, trabalhou no Jornal Última Hora, Ministério do Trabalho e na Embaixada Brasileira na Nigéria. Chegou ao Vasco em 1955, ganhou cinco títulos estaduais e conquistou duas vezes o Troféu Brasil.

A carreira do ex-atleta cruzmaltino começou em 1947, por influência de Ewald Gomes; parecia que o amigo de Adhemar previa o futuro do atleta paulista no Salto Triplo. Em 1955, Adhemar veio para o Rio e, enquanto atuava pelo Clube da Colina, foi bicampeão dos Jogos Olímpicos e tricampeão do Pan-Americano com a equipe brasileira. O homem que foi muito mais que um atleta encerrou a carreira no Vasco, em 1960, após as Olimpíadas de Roma.

BARBOSA

Moacyr Barbosa, o melhor goleiro da história do Vasco e um dos maiores do futebol mundial, nasceu em Campinas, em 1921, e chegou no Gigante em 1945. Tornou-se peça fundamental do impecável time conhecido como "Expresso da Vitória", conquistando o Campeonato Carioca em diversas edições, assim como outras competições de importância nacional. Foi o goleiro na conquista do Sul-Americano de 1948, disputado no Chile em brilhante campanha invicta da equipe com 4 vitórias e 2 empates, campeonato precursor da atual Libertadores.

Pela Seleção Brasileira, foi campeão Sul-Americano em 1949. Em 1950, na grande final do Mundial, disputada no Maracanã, Barbosa ficou marcado como o responsável pela derrota sofrida para a Seleção Celeste, quando levou o gol de Ghiggia, aos 34 minutos do segundo tempo, que definiu o resultado de 2 a 1 para o Uruguai. "No Brasil, a pena máxima é de 30 anos, mas pago há 40 por um crime que não cometi", o arqueiro costumava dizer.

CANDIDO JOSÉ DE ARAUJO

Candinho não foi o primeiro a fazer parte de um clube de regatas, mas o primeiro a ser presidente de um! Em 1904, apenas dezesseis anos após a abolição da escravatura no Brasil, Cândido José de Araújo foi alçado a mais importante cadeira do Vasco da Gama, já indicando a característica pioneira do Clube. Nas eleições de agosto daquele ano, as relações internas seguiam harmoniosas, e o simpático e elegante homem que levava sempre um cravo branco na lapela formou parte dos que ajudaram a consolidar o Clube depois das primeiras crises.

Sob a gestão desse grande dirigente, quando ainda não havia futebol no Clube e o remo era o principal esporte da capital, o Vasco conquistou o primeiro título de sua história como Campeão Carioca de Remo, em 1905. Também, criou-se o "Chá da Sexta", primeiro grande evento social da agremiação cruzmaltina que reunia os associados semanalmente. Com esse exemplo, os vascaínos demonstraram que a barreira do racismo não era obstáculo algum.

DELMA GONÇALVES (PRETINHA)

Pretinha foi uma das maiores jogadoras do futebol feminino mundial. Seu sucesso iniciou-se em 1991, na 1ª edição da Copa do Mundo Feminina organizada pela FIFA. A atacante esteve presente numa excelente fase do futebol feminino conquistando o 3º lugar na Copa de 99, o 2º lugar na Copa de 2007 e duas medalhas de prata nas Olimpíadas de 2004 e 2008.

Delma Gonçalves, apelidada de Pretinha, além das brilhantes atuações pela Seleção, foi pentacampeã estadual pelo Vasco, de 1996 a 2000, sendo a artilheira de todas essas edições. Além disso, venceu o Campeonato Brasileiro 3 vezes, nos anos 1993, 1995 e 1998.

O fôlego interminável dessa lenda futebolística a fez voltar à Seleção aos 39 anos, depois de 6 anos afastada, para participar de um amistoso contra a França em 2014. Recentemente, a medalhista olímpica e mundial tornou-se membro do Conselho de Craques da CBF. Foi ainda auxiliar pontual da Seleção Feminina Sub-20 durante os treinos na Granja Comary, em Teresópolis (RJ).

PAI SANTANA

No imaginário do torcedor vascaíno, sempre estará presente a imagem de um senhor negro vestindo um fraque branco, ajoelhado no gramado e beijando o pendão cruzmaltino. O homem representado chama-se Eduardo Santana, conhecido popularmente como Pai Santana, o lendário massagista do Vasco que cuidou e tratou dos ídolos vascaínos.

Santana era um homem de muita fé, era umbandista quimbanda, conhecido também por seus trabalhos espirituais que ajudavam ao Vasco e atrapalhavam as equipes rivais. Além de massagista, guia espiritual e boxeador, formou-se na Escola de Educação Física do Exército, chegando mesmo a ser técnico do Vasco durante um torneio em 1974.

Este incrível senhor também era filantropo e amava as crianças, realizando trabalhos sociais em regiões carentes. Levou o sentimento de ser vascaíno a pessoas de diversas cidades durante excursões do Vasco, distribuindo diplomas com sua assinatura. Santana sempre nos iluminou!

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