Fellipe Bastos detalha conflito com Sá Pinto e aponta motivos da queda do Vasco

O volante Fellipe Bastos afirmou que Alexandre Campello lhe garantiu que seria reintegrado após discussão com Ricardo Sá Pinto.

Fellipe Bastos em jogo contra o Ceará
Fellipe Bastos em jogo contra o Ceará (Foto: Rafael Ribeiro/Vasco)

Vice-artilheiro do Vasco em 2020 ao lado de Ribamar, com quatro gols, Fellipe Bastos não teve seu contrato renovado com o clube em dezembro. Uma discussão com o treinador Ricardo Sá Pinto, que acabou demitido no mesmo mês, motivou o término da quarta passagem do volante por São Januário.

Três meses depois, em longa entrevista ao ge, o jogador de 31 anos detalhou o atrito com o português, acusou a diretoria comanda pelo ex-presidente Alexandre Campello de não cumprir com o que lhe prometeu e elencou pontos centrais que, em sua opinião, levaram o clube ao quarto rebaixamento de sua história no Brasileirão.

Na visão de Bastos, atualmente analisando possibilidades para seguir a carreira, o erro crucial do comando do futebol vascaíno foi a demissão de Ramon Menezes, no início de outubro. Disse acreditar também que a queda deu-se pela não absorção das ideias de Sá Pinto e em função de contratações de jogadores sem identificação com o clube, para quem revelou ter falado à época: “O Vasco não é Disneylândia”.

A saída de Bastos começou a se desenhar em 3 de dezembro, quando foi impedido pela Conmebol de participar da derrota por 1 a 0 para o Defensa y Justicia, que eliminou o Vasco nas oitavas de final da Copa Sul-Americana – tinha sido diagnosticado com a Covid-19 dias antes. O jogador foi barrado por seguranças da Conmebol em São Januário, local que considera sua casa, e, incomodado como o processo foi conduzido, teve de ir à sala de Sá Pinto no dia seguinte para ouvir explicações e cobranças do português. O tom subiu, e o caldo entornou.

– No outro dia, ele me chama na sala dele para conversar comigo. Ele disse: “Você sabe que pode ficar fora de qualquer jogo que eu escolher”. Falei: “Claro, o senhor é o treinador e escolhe. Com certeza é alguma coisa que a gente tem que acatar”. Aí ele começou a se exaltar e a falar alto: “Você tem que me respeitar como treinador”. Eu falei: “Te respeito como treinador, mas você não precisa falar alto. Só estamos eu e você na sala, estamos conversando”. Ele: “Mas você tem que acreditar na minha palavra”. Falei: “Não sei se foi você, se foi o supervisor, se foi o diretor, mas eu acho muito estranho o que aconteceu. Eu estava liberado para jogar na Argentina e sete dias depois no Brasil eu não estava. Mas cabe a mim aceitar ou não” – recordou Bastos.

Conhecido pelo temperamento explosivo, Sá Pinto começou a gesticular e apontou o dedo a Fellipe, segundo relato do volante. Foi o final da conversa, já que, no entendimento do jogador, o treinador passara do ponto ali:

– Aí ele ficou possesso, começou a falar alto, gritar… Quando ele botou o dedo na minha cara, eu falei: “Cara, eu te respeito como treinador, mas você não é meu pai para ficar falando assim comigo. Então fala baixo, e a gente conversa normal”. Ele falou mais alto, a gente se exaltou, e um falou alto com o outro. Aí eu saí da sala, e ele falou: “Vai treinar afastado”.

Terminada a discussão, Bastos contou que procurou o então diretor executivo de futebol, André Mazzuco. O jogador disse que, após conversas com Mazzuco e o ex-presidente Campello, sentiu-se tranquilo de que seguiria em São Januário. A expectativa, porém, não se confirmou tanto que, ao lembrar do episódio, afirmou que algumas pessoas lhe mentiram o tempo todo.

– Eu falei: “Tudo bem”. Respeitei, saí da sala, troquei a roupa, conversei, contei a história toda para o Mazzuco, não falei que fiz menos ou mais. Falei para o Mazzuco: “Respeito muito a minha história dentro do clube, respeito muito o Vasco, respeito a situação do Vasco, mas eu não vou passar por isso. Eu não fiz nada e não vou treinar separado porque eu respeito a situação do clube”. O Mazzuco disse: “Tudo bem, vai para casa, a gente vai conversar e tal”. Nisso, o presidente me ligou e falou: “Pode ficar tranquilo, a gente vai conversar com ele, você tem minha palavra que vai ser reintegrado e vai voltar”. E eu estou aí em casa há quatro meses (risos). É, eu estou em casa – afirmou o jogador.

Em casa enquanto define seu futuro no futebol, Bastos, que, aos risos, projeta mais 10 anos de carreira, curte o momento “de motorista dos filhos”, Giovanna e Matheus, também esportistas. E, no papo de quase uma hora com o ge, contou o quanto sofreu com o rebaixamento e a saída do Vasco, que lhe fez chorar diversas vezes.

Confira as respostas de Fellipe Bastos

Motorista dos filhos, Giovanna e Matheus

– Uma é atleta da ginástica olímpica, e o outro gosta de bola. Futsal e campo. Ela tem 9 anos e ele tem 7. Virei motorista de atleta nesse tempo que me deram, quatro meses em casa. Parei de treinar em 6 de dezembro (no Vasco).

Treinos enquanto aguarda propostas

– Tenho treinado muito com o meu preparador físico, o Marlon, e esperado. Tenho recebido algumas coisas, mas tem que ser alguma coisa muito boa para mim e para a minha família até pela rotina deles aqui. Eu estou com muita vontade, lógico que fico com a apreensão de resolver logo, mas tenho que ter tranquilidade, ainda mais num momento da carreira onde não posso dar um passo em falso.

– Tenho treinado todo dia de manhã, tem dia que o preparador está mais agitado e treino em dois períodos. Treino muito forte, e aí meio-dia, 13h, sou encarregado de pegar as crianças na escola. Aí começa os treinos do Matheus, que treina dois períodos quase todos os dias, e quem leva é o pai. Eu gosto muito de acompanhar porque sinto um pouco da nostalgia. Vivi esse momento com meu pai, mais com a minha mãe porque meu pai trabalhava. E agora estou tendo esse prazer com o meu filho. Não fico falando nada, mas quando entra no carro eu dou uma dura quando tem que dar. Meu pai fazia o mesmo (risos).

– Essa é a minha rotina agora, não é o que eu queria e o que eu almejava, mas eu estou crescendo muito como pai. A gente não tem tempo para eles quando está jogando e concentrado. Agora estou tendo para aprender muitas coisas com eles, às vezes fico em casa vendo o treinamento da minha filha, e ela fica muito feliz. Esse tempo tem sido muito importante, mas eu quero jogar.

– No domingo, eu fui ver o jogo dele às oito da manhã. Se eu tivesse jogando, com certeza eu não iria. Tenho abstraído um pouquinho porque confesso que fico bastante ansioso para fechar alguma coisa. Isso tem sido saudável e preenchido muito do meu tempo.

Como acompanhou o Vasco após deixar o clube?

– No início, falei: “Não vou acompanhar porque eu não sei o que pode vir acontecer”. Mas depois eu disse: “Não, vou acompanhar pelos meus companheiros e pelo clube que eu gosto muito, eu amo o Vasco”. Eu não queria que acontecesse a queda, ainda mais com a chegada do Vanderlei, que é um cara que gosto muito e que a gente trabalhou junto em 2019.

– Fiquei muito triste, eu torcia nos jogos. Minha esposa brincava que eu ficava muito mais nervoso do lado de fora. Sofri bastante, fiquei muito triste pelos meus companheiros. Conversei com alguns deles, Castan é meu amigo. Henrique, Pikachu, Carlinhos, Fernando Miguel, Talles, Andrey, Ricardo… Conversei com todos eles antes dos jogos, mandava força, mandava sorte.

– Mas aconteceu o pior, e a gente espera que o Vasco volte melhor do que caiu, volte mais organizado. E que as pessoas cumpram com as palavras que falam quando entram. Que cumpram realmente o que elas prometem.

O que acredita que levou o Vasco à Série B?

– Acho que é uma junção, não tem um só fator. A primeira e mais gritante foi a saída do Ramon porque ele já tinha o grupo na mão. Lógico que alguns resultados aconteceram, e é normal oscilar no Campeonato Brasileiro, onde se tem grandes clubes e com a situação da pandemia.

– Viagens e jogo atrás de jogo… E a gente perdeu uma classificação para o Botafogo em São Januário, e as pessoas já começaram a questionar o trabalho do Ramon. Botafogo é um clássico, você pode ganhar, empatar ou perder, mas é clássico. Logo depois, a gente perdeu para o Bahia e o Atlético-MG, e aí mandaram o Ramon embora.

Saída de Ramon faz grupo sentir e Sá Pinto não passa ideias com clareza

– Acho que ali foi uma coisa que o grupo sentiu bastante. A chegada do Sá Pinto o grupo não recebeu muito bem, e ele veio com alguns métodos europeus. Eu joguei na Europa, sei bastante como é, mas o Vasco vivia um momento político e interno muito conturbado. Isso fez com que as coisas se perdessem pelo caminho.

– E toda aquela gordura que a gente tinha construído no início do campeonato com as vitórias… Acho que foram quatro vitórias e dois empates ou algo assim. Quando a gente oscilou, ainda estava em nono ou 10º. Com certeza o Ramon ia recuperar por conhecer o grupo e por conhecer muito o Vasco. Eu já vivi isso no Vasco, e ano político no Vasco é conturbado. Isso é normal. Acho que as pessoas não tiveram paciência como, por exemplo, acreditaram no trabalho do Odair no Fluminense.

Sá Pinto muda estilo de jogar

– Quando chega o Sá Pinto, ele chega com algumas informações que eu não sei quem deu. Ele escolhe os jogadores dele e com algumas metodologias que a gente demorou a entender. Acabou que no final ninguém entendeu também. Entramos na zona de rebaixamento e para sair dali, cara, ainda mais no momento que vivia o clube é muito difícil. Acho que demorou um pouco para resolver isso.

Chegada de Luxa e jogadores sem identificação

– Quando chega o Vanderlei, o Vasco ainda dá uma levantada, sai da zona do rebaixamento, tem algumas derrotas dolorosa. Acho que foi a saída do Ramon, parte política muito forte e escolhas erradas do treinador. O entendimento do grupo foi lento e alguns jogadores que não conhecem a grandeza do clube.

Jogadores que não entenderam a dimensão do Vasco

– Alguns jogadores não entenderam a grandeza do Vasco até pela situação que a gente vive, o torcedor não consegue ir a São Januário e estar presente em todos os jogos. A grandeza do clube é a torcida que você tem, a história que você tem junto com a sua torcida. Alguns jogadores não entenderam isso, algumas derrotas precisam ser dolorosas e te dão um alerta. Essas derrotas aconteceram sem o torcedor estar ali dentro, e aí passa despercebido.

– Isso fez com que a gente perdesse um jogo, lógico que sentia ali, mas não sentia com o mesmo fervor que tem de sentir qualquer derrota. E ia para o outro jogo pensando: “Se eu ganhar ou perder é a mesma coisa”. Teve uma frase que falei é que o Vasco não é Disneylândia. Isso eu falei lá dentro, e vocês podem reproduzir. Alguns jogadores realmente achavam que estavam na Disney porque não tinha torcedor.

– Eu vivi momentos muito bons no Vasco e momentos ruins em que a torcida me cobrava, e eu também tinha que fazer o meu melhor e minha reflexão. Como não tem torcida no estádio e jogadores que não mexem em redes sociais, então não vai sentir pressão nenhuma. E o Vasco é pressão. Para ser grande, você precisa ter pressão por vitórias também.

Essa frase foi direcionada aos mais jovens?

– Os mais jovens conhecem a história do clube. Muitos jogadores chegaram no meio do caminho e não tiveram contato com torcedor. Eles não entendem a grandeza do clube.

Relacionamento com Sá Pinto passo a passo

– A gente tinha uma relação super aberta. Português tem isso de ser mais fervoroso, vivi isso quando joguei lá. Tínhamos uma relação muito correta até o momento em que aconteceu o negócio.

– O que achei estranho depois do que aconteceu, e eu comecei a juntar os fatos, na minha cabeça aconteceram coisas estranhas. Eu estava liberado para jogar na Argentina, a Conmebol me liberou. Não fui porque o país não liberou minha entrada. Tudo bem, não tem como você entrar num país sem estar liberado por conta da Covid-19.

– No jogo de volta, eu estava concentrado com o Werley e mais dois jogadores. Acho um erro você estar concentrado porque está esperando no jogo. Se vai jogar ou não, é opção do treinador, vamos respeitar isso sempre. Mas se você está ali e sabe que não vai para o jogo, isso já está na sua cabeça. Mas se você está ali, e as pessoas passam falando: “Você vai para o jogo, vai entrar, eu confio em você”.

A barração “em casa”

– Aí eu chego em São Januário, que eu considero a minha casa, onde cresci e me desenvolvi, e sou barrado na entrada. Aí eu olho e falo: “Como assim sou barrado? O que aconteceu?”. Disseram que eu não podia ir para o jogo porque a Conmebol não liberou você para o jogo. “Ué, mas eu estava liberado para jogar na Argentina e aqui no Brasil, sete dias depois, eu não posso jogar?”. Achei estranho.

– Isso me deixou bastante chateado, desci do ônibus, fui barrado na entrada, e aí o Sá Pinto veio falar comigo, e eu já estava… E perguntei para ele: “Professor, eu não vou para o jogo?” Ele disse: “Não, isso não é comigo, é com a diretoria e o supervisor”. Eu pensei: “Tudo bem”. E fiquei do lado de fora e fiquei bastante chateado. O pessoal da segurança da Conmebol não me deixou entrar, aí peguei meu carro e fui embora.

Dia seguinte após eliminação para o Defensa

– Aí no outro dia aconteceu a desclassificação por um azar nosso, todo mundo chateado e triste. E eu já chateado em dobro por não ter conseguido ajudar. No outro dia, ele me chama na sala dele para conversar comigo. Ele disse: “Você sabe que pode ficar fora de qualquer jogo que eu escolher”. Falei: “Claro, o senhor é o treinador e escolhe. Com certeza é alguma coisa que a gente tem que acatar”.

Tom do português sobe

– Aí ele começou a se exaltar e a falar alto: “Você tem que me respeitar como treinador”. Eu falei: “Te respeito como treinador, mas tu não precisa falar alto. Só estamos eu e você na sala, estamos conversando”. Ele: “Mas você tem que acreditar na minha palavra”.

– Falei: “Não sei se foi você, se foi o supervisor, se foi o diretor, mas eu acho muito estranho o que aconteceu. Eu estava liberado para jogar na Argentina e sete dias depois no Brasil eu não estava. Mas cabe a mim aceitar ou não”.

– Aí ele ficou possesso, começou a falar alto, gritar… Quando ele botou o dedo na minha cara, eu falei: “Cara, eu te respeito como treinador, mas você não é meu pai para ficar falando assim comigo. Então fala baixo, e a gente conversa normal”. Ele falou mais alto, a gente se exaltou, e um falou alto com o outro. Aí eu saí da sala, e ele falou: “Vai treinar afastado”.

– Eu falei: “Tudo bem”. Respeitei, saí da sala, troquei a roupa, conversei com o Mazzuco, contei a história toda para o Mazzuco, não falei que fiz menos ou mais. Falei para o Mazzuco: “Respeito muito a minha história dentro do clube, respeito muito o Vasco, respeito a situação do Vasco, mas eu não vou passar por essa situação. Eu não fiz nada e não vou treinar separado porque eu respeito a situação”.

– O Mazzuco disse: “Tudo bem, vai para casa, a gente vai conversar e tal”. Nisso, o presidente me ligou e falou: “Pode ficar tranquilo, a gente vai conversar com ele, você tem minha palavra que vai ser reintegrado e vai voltar”. E eu estou aí em casa há quatro meses (risos). É, eu estou em casa.

Seria titular contra o Defensa?

– Não sei se eu seria porque ele não soltava a escalação antes, mas estava conversando bastante comigo, falando e perguntando, dando uma sugestão que eu ia jogar.

Isolamento por Covid-19 antes de jogo com o Sport

– Foi na viagem que eu senti um calafrio no avião, e foi um calafrio diferente. Recife faz um calor danado, e eu sentindo frio. “Pô, cara eu nunca senti isso, será que é Covid?”. E só faltavam eu e mais cinco jogadores que não tinham contraído. Mas eu vou fazer exame aqui. Se eu pegar, vou ter que ficar aqui por 10 dias. Disse: “Doutor, até para eu não contaminar meus companheiros, faz logo o exame. Se tiver que me isolar, eu já me isolo aqui mesmo, não tem problema nenhuma”. Fizemos um teste rápido, seria uma oportunidade que eu teria com ele, mas não aconteceu.

Trancado em Recife

– Fiquei 10 dias em Recife, minha esposa já tinha contraído Covid-19 e foi para lá me fazer me companhia. Ficamos 10 dias trancados no quarto de hotel, pedíamos comida, deixavam a bandeja na porta. Tocavam campainha, eu ia lá e pegava a comida e sem sentir gosto e cheiro. Fiquei 10 dias sem realmente fazer nada.

– Deitava, acordava, não tinha varanda no quarto de hotel. Era só uma janela, mas foram momentos para mim e para a minha esposa de crescimento como casal. Ali que você vê se ama realmente porque 10 dias grudados (risos)…

– Senti falta de correr. Tenho minha academia em casa, e lá eu não conseguia fazer nada. Era muito estranho.

Mais problemas com Covid-19?

– Os primeiros dias foram bastante complicados, fiquei com muita dor no corpo, não conseguia levantar da cama. Não tinha vontade de comer, mas eu me alimentava porque sabia que era importante. Não sentia cheiro e nem gosto de nada. Logo depois eu melhorei com a medicação e com o acompanhamento dos médicos o tempo inteiro. Os quatro primeiros dias foram difíceis.

Volta aos treinos com dificuldades

– Na volta aos treinos, até por ter ficado 10 dias sem fazer nada, senti muito e na parte respiratória eu não conseguia treinar. Nunca pedi para sair de treino nenhum. No primeiro treino, eu falei: “Para, para, eu não estou aguentando”. Isso me marcou porque eu nunca tinha pedido para sair de treino. Lógico que tem protocolos, exames, mas eu não consegui não. Fiquei muito ofegante, não conseguia recuperar. Isso me dificultou muito na volta. Agora estou zerado. Depois de uma semana zerou.

Jogadores não pegam métodos de Sá Pinto

– Realmente os jogadores não assimilaram rapidamente as ideias dele e a forma de jogar. A gente não estava acostumado a jogar com três zagueiros, isso foi uma situação bastante duvidosa para todo mundo. Eram três zagueiros, mais cinco e mais dois lá na frente. A gente demorou a entender isso, e, em alguns jogos, não precisava tanto porque precisaríamos atacar e propor o jogo.

– Aconteceram algumas derrotas duras, como 4 a 1 para o Ceará em casa. Jogador de futebol é assim mesmo, a gente começa a tentar achar circunstâncias e coisas para melhorar. Quando você vê que não vem a melhora, perdendo confiança, e entrando na zona do rebaixamento, eu acho que isso também ajudou o Vasco a cair.

Sá Pinto também demorou a entender as características do time?

– Ele demorou para entender algumas carências do grupo e algumas características de como o grupo foi criado. E faltou jogar em cima das características dos jogadores que lá estavam. Não adianta, no meio do campeonato você não vai mudar a característica de quem está ali, você pode aperfeiçoar.

– Acho que faltou um pouquinho mais de tato da parte dele para entender a característica do time e dos jogadores para poder montar a forma de jogar e a forma que ele queria que ele jogasse.

Faltou a ele se adaptar um pouco aos jogadores?

– Você leu direitinho. Faltou a ele esse pensamento, e eu acho que foram 12 ou 13 jogos, e a gente perdeu bastante. Ganhamos só do Sport e do Santos, mas é muito fácil eu apontar só o Sá Pinto hoje. Tem também a questão dos jogadores, do Ramon e da política do Vasco. As pessoas dizem que não interfere a questão política. Interfere sim, interfere e muito dentro do clube da maneira que os funcionários recebem a política. Da maneira que a imprensa recebe isso.

– Nosso grupo era muito novo, alguns jogadores experientes, mas a maioria era de novos. A gente precisava de tranquilidade para trabalhar, é o que a gente tinha no início do campeonato. Oscilar é normal e, quando oscilou, o Ramon foi mandado embora. Para mim, a coisa principal para o Vasco cair na tabela e consequentemente ter o rebaixamento foi mandar o Ramon embora.

Teve conversa com o grupo quando o presidente decidiu demitir Ramon?

– Não teve nenhuma conversa com a gente, acho que não teve com o capitão. Ele só comunicou e depois comunicou a saída do (Antônio) Lopes e do Júnior (Lopes) também.

Você era o vice-artilheiro do time e foi um dos líderes do elenco. Deve ter sido difícil sair…

– Muito difícil mesmo, comecei o ano em casa, depois renovo com o Vasco. Aí vem a pandemia, um período em que treinei muito para voltar da maneira que voltei. E no momento de oscilação ser um dos principais jogadores… Não tiveram paciência comigo. O que me apego é que fiz 14 jogos no Brasileiro, claro que oscilei, fiz jogos ruins, mas a maioria foi de bons jogos. Fiz gols, dei assistências e compareci. Isso foi importante demais. Se eu tivesse mais sequência e tranquilidade para trabalhar, seria diferente.

– Isso é o futebol, não estou no futebol de agora. Fico bastante triste por estar num time como o Vasco, onde eu cresci, ganhei títulos. Tenho muito carinho pelo clube, pelos funcionários, e até hoje dói a maneira como as coisas aconteceram.

Acha que a saída tem influência da torcida, que pegava no seu pé?

– Acho que não. A torcida do Vasco comigo sempre foi amor e ódio, me amava muito e me odiava muito. A maioria das pessoas que fala comigo é com carinho. É o que eu vou levar. Também tiveram algumas vaias, que foram para o meu crescimento.

– O torcedor do Vasco está machucado pelos últimos anos que o clube vem vivendo. Não podendo estar em São Januário para apoiar e ajudar… Com certeza São Januário é diferente estádio ele cheio, a gente viveu isso com o Vanderlei em 2019. A gente estava na quarta rodada com um ponto quando o Vanderlei chega e faz o time brigar por outra coisa, por Sul-Americana.

– O torcedor tem sofrido bastante, caiu quatro vezes. O torcedor é quem mais se machuca, a gente sente muito porque é uma mancha na carreira, mas o torcedor, que vive pelo clube, está sempre machucado. Também entendo o torcedor, e eu sei que eles têm muito carinho por mim, e eu tenho muito carinho por eles por ter mudado minha história quando voltei para o Brasil.

Acha que encerrou o ciclo no Vasco?

– É uma casa que eu tenho. O Vasco é uma casa minha, me sinto em casa em São Januário, mas acho que tenho de trilhar outros caminhos também porque fiquei muito magoado com a forma que a situação foi tratada. Realmente senti muito, chorava em casa, minha esposa sabe o quanto foi difícil para mim ficar fora esses meses. Queria ajudar de qualquer maneira, eu não podendo ajudar, eu não podendo fazer o que mais gosto, eu não podendo estar no meu clube de coração. As pessoas mentindo para mim o tempo inteiro, as pessoas falando que iam se resolver e não se resolveu.

– O Vasco instituição está sempre aqui no meu coração e estará sempre. Mas as pessoas que lá estavam faltaram um pouquinho com respeito com a minha história dentro do clube, isso me magoou bastante. Eu nunca vou fechar a porta para o Vasco, mas acho que o melhor caminho para mim, para minha saúde e para a minha mente é ter outros ares e buscar ser melhor em outro lugar.

As pessoas sobre quem você está falando são Campello, Mazzuco e Sá Pinto…

– Vou deixar subentendido (risos), mas vocês já sabem quem estava lá. As únicas pessoas que sei que sempre estiveram ao meu lado foram os todos os funcionários, roupeiros, massagistas, todos os fisioterapeutas, Carlos Germano… Tenho muito carinho por todos, todos me ligaram e mandaram mensagens. As outras pessoas que vocês falaram eu vou deixar subentendido.

Planos para o futuro

– Não tem nada de concreto, estou esperando com muita vontade e disposição. As pessoas que vêm pegar informação às vezes pensam que como tem 31 anos, já jogou em grandes clubes e conquistou grandes títulos não tem ambição. Minha vida é movida a ambição e desafios. O que mais quero é jogar futebol, estar dentro de campo. Meu filho pergunta toda hora: “Papai, você vai jogar onde?”. Isso é uma pressão que tenho dentro de casa. Quero ser orgulho para o meu filho e para a minha família.

– Estou com gana, treino todo dia. Já treinava muito, agora treino muito mais porque sei que quando tiver oportunidade, eu vou poder ajudar. As pessoas que quiserem o Fellipe Bastos podem ter certeza que vão ter um jogador disposto a fazer tudo pela instituição que quiser o Fellipe Bastos. Eu estou radiante, querendo acertar com um clube, jogar logo e voltar à rotina normal.

Sondagens de fora e paciência pelo tiro certo

– Algumas coisas chegaram de fora do país, mas têm que ser coisas importantes para mim e para a minha família. Sei da situação financeira de todos os clubes, ainda mais nesse momento de pandemia. São coisas que vão acontecer, mas preciso de paciência. A ansiedade bate, mas é preciso ter muita cautela e inteligência para escolher o melhor. Vai ser importante para o restante da minha carreira. Pretendo jogar mais uns 10 anos (risos).

Vasco ainda te deve dinheiro?

– Deve, mas vai resolver. Entendo a situação que o clube tem passado, nunca botei clubes na Justiça. Tinha coisa para receber do Corinthians, tenho para receber do Vasco, mas procuro resolver de maneira amigável. É preciso ter respeito pelas instituições, não condeno os jogadores que entram na Justiça porque é direito deles, mas é uma situação que faço na minha carreira.

– Espero que resolva, não estou falando que eu não possa buscar meus direitos se não resolver. Espero resolver amigavelmente. Tenho bastante coisinha para receber (risos). Estou desde outubro sem salário, mas isso aí vai se acertar. A gente já sentou, conversou, e eu espero que eles cumpram com a palavra deles (risos).

– É uma situação recorrente no Vasco, tem que mudar isso daí, e a gente vai tirando as bengalas. Tem muita gente que pega isso como bengala: “Ah, eu não estou recebendo”. O Vasco é muito grande para ficar com problema pequenos como salário atrasado e estrutura. Agora está se estruturando com CT e precisa crescer estruturalmente como instituição. Não só de estrutura física, mas estrutura de pessoas que consigam fazer que o Vasco cresça.

Fonte: Globo Esporte

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