Dr. Clóvis Munhoz revela drama na luta contra a Covid-19

Dr. Clóvis Munhoz, vascaíno de coração, se emocionou ao relatar lutra contra a Covid-19 e se posiciona contra volta ao futebol.

O coração vascaíno do médico Clóvis Munhoz está em dia e pronto para celebrar 70 anos de vida que completará no próximo dia 6. Após enfrentar um processo de 62 dias de internação por conta do coronavírus, Munhoz deixou o Hospital Copa D'or na última terça com direito a uma festa digna de craque do Vasco. Beijo da esposa (Monique), balões de festa, bandeira do clube e os tradicional grito de "Casaca" compuseram a saída triunfal.

Três dias após receber alta, Clóvis se emocionou ao relembrar o carinho recebido no lobby do hospital e ao fazer agradecimentos. Confira o depoimento detalhado do médico abaixo:

"Aquilo ali foi uma bondade e maldade (risos). Achei estranho quando saí do quarto. Estavam meu anestesista, além do Fabrício (clínico de Clóvis), e o Cotta, que é conselheiro do Cremerj e cirurgião geral. Achei que ia descer pela emergência, sair da cadeira de rodas, pegar o andador, entrar no carro e ir para casa.

Aí estavam os dois ali, e o Eduardo saca uma bandeira do Vasco e me dá de presente. Me enrolei na bandeira, mas achei meio estranho. O Fabrício me dá cinco gotas de Rivotril e diz: "Toma essas cinco gotinhas porque você vai precisar". Falei: "Fabrício, tá maluco? Nunca tomei Rivotril na minha vida". Ele respondeu: "Vai por mim, toma".

Não entendi nada. Minha mulher sabia de tudo, minha filha, meus amigos... Fizeram aquela super surpresa. Quando abri o elevador, eu fiquei em êxtase. Foi uma sensação das mais maravilhosas que já senti na minha vida.

Não tenho como descrever aquilo. Eu fiquei megaemocionado (com a voz muito embargada). Tenho muitos defeitos, mas meu senso de gratidão é muito grande. Por mais que eu agradeça a todos os amigos, a toda a equipe médica, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, técnico de enfermagem, enfermagem, material de limpeza, maqueiro, laboratório... Por mais que eu agradeça todos os dias tudo o que foi feito por mim, nunca o agradecimento será suficiente.

Fiquei muito grato, não sabia que era tão querido. Tenho que ir às igrejas cumprir promessas dos amigos e irei com prazer".

Responsável pela Câmara Técnica de Medicina Esportiva do Cremerj (atualmente substituído por Marcelo Erthal), Clóvis comentou sobre o movimento de clubes e Ferj pela volta do Campeonato Carioca. O médico endossou as recomendações do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro contra o retorno às atividades no momento.

- Com certeza. Pediram um prazo de 60 dias para uma nova reavaliação, e esses 60 dias não foram cumpridos. Devem ter sido cumpridos no máximo uns 30 dias. Então acho que ainda é cedo para se fazer esse tipo de atividade, mas respeito a instituição e os profissionais que estão optando por outro caminho.

Em entrevista com duração de 30 minutos, Clóvis narrou como foi o enfrentamento ao Covid-19 e explicou por que, a exemplo do Cremerj, é contra a volta do futebol agora. Contou também sobre como se tornou um "vascaíno roxo" e revelou planos para os aniversários de 70 e 71 anos.

Confira tudo abaixo:

Sintomas e sufoco com o Covid-19

- Foi uma coisa fulminante. Eu comecei com uma febre na quinta-feira, na sexta eu fui ao médico e estava com o pulmão limpo, a febre passou com a medicação. Mas no sábado voltei a fazer febre, e ela já não mais normalizava com a medicação. Na segunda-feira, comecei a fazer falta de ar. O doutor Fabrício, que é meu clínico, veio aqui e fez um raio-x. Achou imagem pequena e pensou que pudesse ser uma pneumonia. Entrou com antibiótico, mas na quarta-feira eu piorei. Comecei a ter falta de ar sem fazer esforço.

Aí internei no dia 25 de março no Copa D'or, numa quarta-feira à noite. Na quinta de manhã, eu estava respirando com grande dificuldade, com uma hipotermia brutal, saturando lá embaixo o oxigênio. Aí a equipe médica ligou para o Fabrício e disse: "Se não o entubarmos, vamos perder o Clóvis".

Fui entubado por 14 dias e meio, fui submetido a uma traqueostomia por questão de segurança. Usei cinco cânulas (tubos) que fui substituindo conforme obstruía. Passei alguns sufocos porque a obstrução da cânula veio sem esperar, não tem como prever.

Aí passei para três cânulas não metálicas, depois passei para duas e, graças a Deus, 62 dias depois tive alta. Estou com a traqueostomia cicatrizada, vim para a casa terça-feira. Hoje é o quarto dia que estou em casa, mas a situação foi gravíssima.

Fui informado que eu estive do outro lado e voltei.

Clóvis Munhoz no momento em que deixa o hospital

Recuperação: mais elegante

Depois de 62 dias, graças a Deus, hoje já é o 12º dia que estou me locomovendo com o andador, mas sem a ajuda de ninguém. Só eu e o andador. Estou com a nutricionista, perdi 31 quilos, foi uma das únicas coisas boas. Quero dar continuidade a esse emagrecimento pra viver uma vida mais saudável porque uma grande comorbidade dessa doença é a obesidade.

Coração vascaíno (há uma foto no Arquivo Nacional com Clóvis ainda criança com Almir Pernambuquinho, Coronel, Barbosa e Bellini).

- Tive uma infância extremamente feliz porque eu sou vascaíno roxo através do meu pai. Eu com 5 anos ia todo domingo para São Januário uniformizado com camisa, calção, meia e tênis do Vasco. Nós fazíamos uma educação física ali naquela quadra coberta ao lado do departamento médico. Ali hasteávamos as bandeiras do Brasil e do Vasco cantando o Hino Nacional e o hino do Vasco. Participei de vários desfiles dos Jogos Infantis, tive a honra de sair de um dos Jogos Infantis vestido de Almirante.

- Tive a felicidade de entrar em campo mal-acompanhado (risos). Entrei em campo com Barbosa, Orlando Peçanha, Coronel, Bellini, Vavá, Pinga, Almir Pernambuquinho, Sabará e Valter Marciano de Queiroz. Só quem não jogava nada. Tive essa felicidade de conviver com esses grandes jogadores do Vasco. Com 8 anos, eu estava no Maracanã com meu pai vendo o Vasco ter um título que ninguém tem, o de Super-supercampeão. Em cima do Flamengo.

Festa dos 70 anos

Já tinha programado com a minha esposa de fazer uma grande festa dos 70 anos, como eu fiz dos 60. Infelizmente não vou poder fazer. Vai ser uma coisa aqui mesmo com a minha esposa, talvez nem a minha filha venha. Minha filha está em Miguel Pereira com a minha neta, a mãe dele e o marido. Vai ser uma coisa mais de videoconferência, infelizmente estamos nesse confinamento.

Mas há uma coisa que muita gente não sabe: eu tenho um passado no hipismo, fiz hipismo num nível muito alto. Fui vice-campeão carioca Senior Top em 1972, fui terceiro colocado no Brasileiro, concorrendo com cavaleiros que foram medalhistas olímpicos.

E o número da cabeçada (cabresto) do meu cavalo, que eu guardo com muito carinho, era 71. Então em homenagem a isso e aos 70 anos, espero em 2021 fazer uma grande festa reunindo os meus amigos.

Meu amigo Lazaroni (Sebastião, técnico), que eu tive o prazer de ser bicampeão estadual com ele no Vasco, diz uma coisa muito interessante: "Clóvis, na vida nós temos que comemorar todo dia".

Eu fiquei acamado por um tempo enorme. Então, cara, fiquei com um trauma achando que não ia conseguir andar. No início, não conseguia nem ir na cama me movimentar. Hoje sento, levanto, me viro, tomo banho e faço minha barba sozinho.

Há 12 dias, eu dei os meus primeiros seis passos. Quando pensei que ia comemorar seis passos pequenos que dei apoiado num andador. Chorei igual a gente grande. Então a gente tem que comemorar tudo na vida.

Às vezes a gente vai tomar um banho refrescante e não dá valor. Quantos acamados, quantos dependentes há no mundo que não conseguem que a água bata na cabeça dele? A gente não reflete de poder levar o garfo à boca, de poder comer uma comida gostosa, de poder se locomover, de poder assistir a um espetáculo e poder conversar com seus entes queridos e amigos. Uma série de pequenas coisas que a gente faz e não dá a menor importância.

Aí um dia você se vê como eu me vi, completamente dependente para tudo. Para banho, higiene, locomoção, para tomar um remédio, e aí você começa a encarar a vida de outra maneira e a refletir de outro jeito.

Como o senhor se deparou com o movimento de clubes e federação pela volta dos campeonatos depois de ter enfrentado o que passou?

Eu fiquei totalmente fora de combate. Não estou indo ao Cremerj, estamos fazendo as plenárias por videoconferência, mas eu fui brilhantemente substituído pelo doutor Marcelo Erthal, que é o responsável pela Câmara Técnica de Ortopedia e me substituiu na Câmara Técnica de Medicina Esportiva.

Eu quero deixar algo claro para não ter nenhum tipo de má interpretação ou acharem que há qualquer perseguição ao clube X ou clube Y. Houve uma solicitação porque a mídia estava informando que havia uma ideia de voltar o campeonato estadual.

O Cremerj protege e defende o ato médico. Ele protege o médico, é compromissado com a ética. Ele não determina ou obriga ninguém a fazer nada. Agora, ele recomenda determinadas situações que se as pessoas ou instituições não seguirem essas recomendações e houver algum fato que infrinja os artigos do Código de Ética Médica, essa pessoa ou instituição pode ser denunciada por alguém.

Qualquer denúncia tem que virar sindicância e ser levada a plenária. E essa sindicância ou é arquivada ou é transformada em processo ético-profissional.

Houve uma solicitação da presidência (do Cremerj) de uma consulta às Câmaras Técnicas de Infectologia e de Medicina Esportiva. Foi realizada uma reunião em que as Câmaras Técnicas de Infectologia e Medicina Esportiva e, depois de um profundo estudo baseado em material científico e publicações dos órgãos sanitários e da OMS (Organização Mundial de Saúde), chegou-se à conclusão de recomendar a não volta aos treinamentos e muito menos aos campeonatos.

Se o Flamengo acha que não deve cumprir essa recomendação e que está isento de qualquer risco, é uma atitude que a gente respeita e fica com essa recomendação. Como eu vou contra a Câmara Técnica de Infectologia? Não posso. Como vou contra a publicações de órgãos científicos.

Eles fizeram uma recomendação, e nós publicamos. A gente respeita a posição do Flamengo como uma grande instituição, mas tem que considerar sempre que o atleta tem pai, mãe, tio, tia, sobrinho e filhos.

Eu espero do fundo do coração que nada aconteça com ninguém, já bastam tantas vidas que foram sacrificadas por causa dessa doença tão terrível. Eu sei bem o que o passei, sofri na carne isso. Espero que tudo chegue a um bom termo.
O espírito do Cremerj não é podar ou suprimir alguém. Somos uma instituição que defendemos o colega e lutamos com todas as forças pela ética médica.

Como endossou todas as recomendações do Cremerj, o senhor obviamente é contra à volta aos jogos e treinos. Certo?

Com certeza. Pediram um prazo de 60 dias para uma nova reavaliação, e esses 60 dias não foram cumpridos. Devem ter sido cumpridos no máximo uns 30 dias. Então acho que ainda é cedo para se fazer esse tipo de atividade, mas respeito a instituição e os profissionais que estão optando por outro caminho.

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